Realismo Francês Contemporâneo

Por Vitor Velloso


Entrei no cinema a fim de assistir “Custódia”, sem saber absolutamente nada sobre o longa. Ao início da projeção vemos uma discussão judicial acerca da guarda dos filhos, Joséphine (Mathilde Auneveux) e Julien Besson (Thomas Gioria), pelos pais Miriam (Léa Drucker) e Antoine (Denis Ménochet). O processo acontece com diálogos muito rápidos e argumentações quase instintivas. A intensidade e a velocidade da cena promovem a fixação visual do espectador.

São muitas informações para serem absorvidas, pois, como não conhecemos nada sobre aqueles personagens, tentamos decifrar quem está mentindo e quem não está. Miriam argumenta que seu ex-marido é agressivo, já a agrediu e nem os próprios filhos querem vê-lo. Já Antoine diz o oposto, que nunca teve esse tipo de comportamento e que não compreende o motivo de seus filhos não estarem dispostos a encontrá-lo. Esse sentimento dúbio que o diretor promove, é o que contribui para a primeira metade do longa funcionar.

A direção é de Xavier Legrand, que conduz esse thriller familiar a partir dos pequenos detalhes, das breves escapadas de um dos personagens. Sempre tentando manipular, até onde é possível, tudo que está em jogo. Utilizando como eixo dramático o filho mais novo, que se encontra no meio do fogo cruzado, sendo obrigado a passar fins de semana com seu pai, contra sua vontade. Enquanto este, busca demonstrar alguma forma de carinho, ainda que possua um temperamento explosivo.

É necessário evitar qualquer tipo de informação sobre a trama, pois, o impacto que o filme terá sobre o público não depende especificamente do que ele ache, mas sim do que é. É uma forma de hiper-realismo, onde a verdade só toma forma quando já sucumbiu os fatos para si. Por isso, qualquer informação que eu possa dar, pode, e vai, estragar sua experiência com “Custódia”. Dito isso, a direção de Legrand é extremamente eficaz ao construir pequenos planos de aproximação, para que, aos poucos, sejamos sufocados pelas revelações. Ou em super close, em que encaramos os olhos de uma criança inocente que vive um pesadelo que não é capaz de evitar.

Essa paciência na progressão da história, remete a um caráter mais contemplativo do assunto. Uma frieza digna de Bresson, ainda que a comparação termine apenas aqui. Existe uma enunciação trágica que vêm a partir do segundo ato, que tensiona a atmosfera. Força essa claustrofobia dramática, a fim de expor os fantasmas de seus personagens.

A filha Joséphine, é um pouco menos trabalhada psicologicamente que os demais personagens, por um motivo parcialmente lógico, além de mais velha que seu irmão, Julien, ela possui um romance com um menino, de certa forma, rejeitado pela família, o que implica a ela outros problemas, que vão além da separação de seus pais. Mas, isso não quer dizer que ela não possua relevância narrativa, muito pelo contrário, ela é fundamental para seu desfecho.

Conforme nos aproximamos do fim, sentimos um aperto no coração, pois é possível prever o que está por vir. O que poderia ser um demérito ao filme, já que sabemos parte dos acontecimentos previamente. Porém, quando tudo se instala, o espectador é surpreendido pelo impacto visual. O som do longa passa a guiar a tensão, com a montagem promovendo um show de intensidades. O que vai à tela, é um protótipo de filme de terror. Sentimos todos os nervos congelarem, não sabemos como reagir. Essa eficácia do terceiro ato depende diretamente de seu envolvimento com os personagens, e como a construção deles, foi realizada de uma maneira muito humana, sentimos nossos olhos estáticos. Tudo que havia sido promovido de forma calculista e detalhada, implode.

“Custódia” não é fácil. Possui um ritmo lento, mas crescente, parece que é monótono mas está sempre preparando o público. Quando parece se acovardar em alguma temática, vai além. Não possui medo do que está sendo criado, mas um profundo respeito à estrutura clássica de relações pessoais. O tempo esgarçado de determinados planos, contribuem para que todos saiam da sessão com a dúvida, se o final passou rápido ou não, pois, não há como mensurarmos isto, pela sensorialidade que é coordenada pelo diretor.

Sem dúvida é um filme impactante, intenso, assustador e necessário. Quem me acompanha, sabe que eu evito usar adjetivos, mas para esta obra aqui, não encontrei outras palavras.

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