Uma digna fábula antropológica de Aristoteles

Por Fabricio Duque


Toda e qualquer obra, que figure sobre zumbis, é em sua essência um filosófico estudo de caso da condição humana, coexistente em um universo social. Seu público é convidado a questionar a própria existência da coletividade, ideia esta defendida por Aristoteles por acreditar ser uma genuína finalidade antropológica. Um dos filmes que nos imerge nesta questão é “A Noite Devorou o Mundo”.

Quantos de nós já não pensaram na hipotética possibilidade de não mais existir nenhuma novidade, tampouco um ser humano no mundo? Assim, poderíamos sem pressão ler todos os livros, assistir a todos os filmes, ouvir todas as músicas com tempo de sobra. Mas é ideia passageiro visto que precisamos do outro para tudo. Inclusive para competir.

Após uma noite de festa frustrante com a ex-namorada, Sam (o ator noruegês Anders Danielsen Lie, de “Oslo, 31 de Agosto”, “Personal Shopper”) acorda completamente sozinho no apartamento. Ainda confuso, ele descobre um terrível acontecimento: a cidade de Paris está tomada por zumbis famintos. Rapidamente ele começa a proteger o prédio e elabora estratégias para conseguir se manter vivo em meio à catástrofe. No entanto, ele ainda não tem certeza se é o único sobrevivente neste cenário hostil.

Em “Náufrago”, de Robert Zemeckis, Chuck, interpretado por Tom Hanks, sobrevive anos em uma ilha deserta por personificar uma bola de vôlei como Sr. Wilson. E em tantos outros, a própria mente imagina presenças reais para conversar e trocar histórias. Aqui não poderia ser diferente, como o preso zumbi para escutar; a “plateia” lá fora de ouvintes-frequentadores de um show de rock.

Exibido no Festival Varilux de Cinema Francês 2018, “A Noite Devorou o Mundo”, do diretor francês  Dominique Rocher (que criou a ideia original para “O Último Suspiro”, de Daniel Roby), comporta-se exatamente como um filme de gênero. Mas transcende seu resultado ao transformar o tosco elemento característico em metáfora pululante e não explicativa.

Conduz-se assim pela ambiência do tédio, pela rotina de espera, pela percepção de que quanto mais tempo temos, mais prorrogamos nossos quereres com procrastinações. O longa-metragem é uma simbólica representação da perda. De dar a volta por cima. De aceitar que o passado não existe mais, que o presente é o agora e que o futuro é incerto. De que os outros querem “comer” seu cérebro. Fritar seus sonhos. E o alienar em um mundo mais individualizado. “Estar morto é o novo normal”, diz-se entre os esperados truques da mente.

“A Noite Devorou o Mundo” é sobre nossa incompatibilidade de se relacionar com o outro. Uma incomunicabilidade protegida e defensiva pelo meio digital, este um paradoxo, visto que quanto mais liberdade se consegue, mais cavernas são projetadas. Sam busca a sobrevivência e o fortalecimento neste novo mundo: de ser o único ser não infectado no pós-apocalipse à moda de um “Eu sou a lenda”, com Will Smith. Passando o dia-a-dia com seus inventivos, estranhos e excêntricos projetos musicais. E sendo “esnobado” por um gato que prefere a real liberdade orgânica que a salvação aprisionada.

Como já foi dito, é um filme que não foge de sua característica principal: a simplicidade de sua temática. É direto, objetivo, sem ilusões. Nós embarcamos junto com o protagonista em sua aventura, que se preocupa só com o situacional instante atual contra a perigosa, visceral e instintiva fome dos outros.

É a típica obra que confronta nosso propósito, porque quando tudo terminado, só resta mesmo o tempo para viver. Pensamos então com nossos botões sobre o motivo de continuar “acordado” e de não sucumbir e aceitar a transformação da alienação coletiva, comungando apenas urgentes necessidades e apagando o pensar sobre o tudo.

Aristoteles lucubrava que o homem precisa da sociedade para que possa ser plenamente humano (“O isolamento significa a destruição de nossa humanidade”). É neste único lugar, com seus semelhantes, que a troca acontece. Que o sentido adquire vida, ainda que não entendida pelo mistério reinante ao redor das coisas. Este ser pluralista de desejos, emoções e sentimentos adapta-se às limitações do próprio viver acostumado a eleger padrões de conduta. Nós sabemos que somos máquinas errantes em “Westworld”. Que somos marionetes de algo maior e desconhecido. O que nos resta então é aceitar e seguir, como carneirinhos de nossos vontades plantadas.

“A Noite Devorou o Mundo” pode muito bem ser comparada a um episódio de “Black Mirror” por causa de sua fábula realista e fantástica. Não há como o espectador não “viajar na batatinha”. Não saímos imunes pela induzida semente discordante a nosso élan vital, desenrolando o processo evolutivo com complexas formas inventivas de novos seres e estágios, que simplificados ao extremo retornam à essência da criação.

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