Interminável desgaste nosso

Por Gabriel Silveira

Direto da Mostra de Cinema de Ouro Preto 2018


Parece ser de praxe dentro da família Sganzerla falar de âmagos e núcleos das terras tupiniquins. Em “O Desmonte do monte”, Sinai decide ir por uma vereda ainda mais ambiciosa do que as quais seu pai traçou, sem deixar de pagar o pedágio mandatório da homenagem ao espirituosismo em sua herança cinematográfica. Tal ambição encontra-se justamente no didatismo que parece antítese do discurso fílmico brasileiro quando se trata da história da própria nação. É como se, entender a história extra-oficial da nação e toda a dor de todos os espíritos dilacerados nessa terra fosse tarefa para poucos, estes poucos sendo uma elite intelectual ou um corpo de ativismo político revolucionário. O próprio povo não faz ideia (e não tem condição de ter qualquer) de como funciona o intrínseco de sua penúria hereditária.

E é curioso como uma hermeticidade fez-se viva durante nossa filmografia, em anos de chumbo é compreensível que haja a ausência do didático e do discurso direto, afinal, ninguém quer acabar desaparecendo por conta de um curta-metragem de explícitos quinze minutos de discurso de ataque aos poderes maiores. O cinema novo dizia-se a revolução encarnada, e foi, de certa maneira, mas, me desculpa, Glauber, Deus e o Diabo não faz com que morro algum desça ao asfalto procurando a revolução. Nosso cinema político fez-se como qualquer outra cinematografia nacional, mundo a fora, se fez, um ciclo de auto-congratulação clubista de uma elite que pensa que fazer uns filmes de vanguarda para 20.000 espectadores, vindo a ser enaltecido por alguma instituição europeia futuramente, é a salvação da cultura e do espírito brasileiro.

É óbvio que se não fosse por este clube, eu mesmo não estaria presente aqui, via este texto, esguelando tal desesperança (ainda sem sair de tal clubismo, como trato do filme em questão estudando objetos que somente 0,0001 da população brasileira têm ciência). Sem essa Aranha acertou-me como um tiro de canhão e A Idade da Terra ainda é uma de minhas memórias cinematográficas mais extasiantes, mas, acredito que acertos maiores dentro da autoria dos paralelos que estamos traçando aqui vieram quando um aclamar sincero pelo popular manifestou-se em obras como Isto é Noel e Brasil; a manifestação nua da memória coletiva, toda a idealização cristalina daquilo que é o gozo dentro do cânones do discurso popular, não somente em um sentido estratificado, mas, dentro da ideia de coletividade absoluta, congregação sincera.

E, me parece, que é nesta onda do desejo de um discurso claro e aberto — que toca o mais fundo que puder dentro da ferida aberta de nossas malezas e remorsos pelos tiros que não foram dados — que Sinai vem procurando dissecar em O Desmonte, ainda que em 85 minutos de projeção. Sinai projeta um panorama inicial que passa desde as relações conflituosas entre Temiminós (manipulados por portugueses) e Tamoios (manipulados por franceses) aos “louros” da fundação de São Sebastião do Rio de Janeiro por Mem de Sá (representado, em momentos, pela intertextualidade de uma releitura brilhante da performance de Paulo Vilaça em Viagem e Descrição do Rio Guanabara por Ocasião da França Antártica de Rogério), sempre em sintonia com a presença, ou, a futura consagração de referência institucionalizada do Morro do Castelo.

O desmonte do Morro do Castelo — concretizado por organizações públicas e privadas (brasileiras e internacionais), regido pelo prefeito Carlos Sampaio, que, encantado por uma lenda urbana que tratava de um tesouro jesuíta supostamente alocado em sigilo no âmago das catacumbas do morro, desalojou centenas de famílias que habitavam o morro e tiveram sua ventura arremessada aos quatro ventos da penúria das ruas cariocas — este, é síntese do espírito de porco e da ganância branca que tomou as rédeas desta nação pela integridade de sua história; o anseio animalesco pelo lucro que deve vir as custas do desgaste que for, da extinção do espírito e do corpo. Da gente e da terra.

Sinai Sganzerla executa os traços de seu escopo com (quase que) exímia precisão, tratando de uma ressurreição vital da matéria e da memória carioca que, mesmo presente, revela-se fragilizada, quase como em um estado terminal de sua condição de acesso. Quando traçamos o paralelo entre a integridade do corpo de nossa memória audiovisual digital representada em O Desmonte para com o de Dawson City: Tempo Congelado do canadense Bill Morrisson, a obra de Sganzerla vem a tornar-se uma carteira de denúncias ainda mais veemente.

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