Moralismo à la… Quem?

Por Vitor Velloso


Possivelmente uma das maiores diversões de Hollywood, é começar franquias para destruir algo bom que produziu. Sicario é a vítima da semana.

Dirigido por Denis Villeneuve, o Sicario de 2015, era um filme que funcionava muito bem. Os personagens eram sólidos, as atuações acompanhavam o ritmo da narrativa e Roger Deakins, como sempre, roubava o filme. E o personagem de Benicio Del Toro, era um dos mais interessantes. Essa continuação, nada bem-vinda, busca dar continuidade a trama de vingança de Alejandro (Benicio), acompanhada de Matt Graver (Josh Brolin). A história é difícil de explicar, pois nem mesmo o diretor sabe como contá-la. Começa com terrorismo, passa pra vingança, que torna a ser sobre os cartéis, depois muda de novo, e assim vai. Mas em suma, é a continuação da vingança do Alejandro.

Como ponto de partida, eles descaracterizam o personagem, cria um modelo mais agressivo, mais ativo, para tentar acompanhar o conceito do filme, que agora possui um gênero muito bem definido, ação, barata. A letalidade da personalidade que havia sido criado no primeiro, era exatamente pelo fato de não compreendermos sua motivação e sua função. O que não acontece aqui, pois, já temos ideia de tudo isso. Ao vermos, seu personagem fazer parte de um assalto mal planejado, executando um homem, descarregando um pente nele, pensamos: “Quem é esse novo personagem?”. Nada tem haver com a proposta inicial.

Deixando o saudosismo de lado, a direção é do Stefano Sollima, que já foi assistente de direção do Villeneuve, e possui uma carreira, como diretor, no mínimo, ruim. Ele tomba o longa, para a ação frenética, compreendendo que há um potencial para tal. De fato há, o problema é quando a fórmula que se usa, é aquele velho modelo de cartéis, onde vemos uma ação desenfreada por dois minutos, com uma quantidade bizarra de execuções em pouco tempo, seguida de pequenos assaltos. Essa trama de “Special Ops”, já desgastou.

“Não sabemos em quem confiar” É um dos conceitos mais batidos do cinema de gênero. E este longa abusa dele. E agora, temos o clichê mais irritante dos últimos anos do cinema contemporâneo, um homem brutamontes que se vê obrigado a proteger uma criança. Sim, isso já funcionou e rendeu grandes histórias, Leon, O profissional, do Besson é uma delas, The Last of Us, falando um pouco de videogame, também. Porém, se isso é usado como recurso de humanização de personagem, sem nem mesmo uma proposta de linguagem cinematográfica que complementa a ideia, vemos o seguinte resultado: um atraso no ritmo da narrativa, para justificar alguma ação futura proporcionada por algum motivo idiota. O que neste caso, é uma franquia em andamento. Sim, vai ter mais um filme.

E quando vemos uma trama paralela correndo à principal, sem nenhuma ligação coerente, já compreendemos o que virá a seguir. Pois David Castaneda, que interpreta Hector, possui um tempo parcialmente grande de tela, sem justificativa aparente. E quando a junção destas histórias paralelas está para acontecer, podemos ver que o desastre era ainda maior. O moralismo reina neste momento, vemos um tratamento de Western no roteiro “Um homem deve fazer aquilo que um homem deve fazer”. A condição que a frase foi imposta no cinema, é digna de discussões, mas usá-la como máxima, para justificar o personagem de Hectore a atitudes de outros personagens, não.

Antes contávamos com Deakins, para alegrar nossos olhos, agora contamos com Dariusz Wolski, que não é ruim, mas não possui nenhuma presença. E a trilha sonora, feita por Hildur Guonadóttir, é simplificada a praticamente um tema só, um longo ronco de dinossauro. Se a equipe não consegue se estruturar para criar uma obra que se sustente, esperamos isso de Benicio e Josh, porém, não há exatamente com o que se trabalhar aqui. As construções feitas por eles anteriormente, não se sustentam pelo roteiro perdido. Então eles são obrigados a refazerem os personagens, mas como o que os sustenta é extremamente frágil, eles acabam caindo nas armadilhas criadas pelo próprio projeto.

“Sicario: O dia do Soldado” é uma continuação que ninguém queria, de um bom filme que possuía um final bastante redondo. É um filme de assalto tolo e sem propósito. Pelo menos poderia ter alguma estilização, como o “Um dia para Sobreviver”, mas é medíocre até mesmo em ser medíocre.

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