A maior franquia de todos os tempos

Por Vitor Velloso


Existem diversas conotações diferentes que podem ser usadas para classificar algo como, bobo. Acredite, para este filme, é pejorativo.

Atuado, roteirizado (em parceria com Sabine Haudepin) e dirigido por Valérie Lemercier, já começamos a ver onde as coisas deram errado, “50 são os novos 30” conta a história de Marie-Francine, que é largada por seu marido por uma mulher mais nova, e volta a morar com seus pais, que a tratam como criança. A narrativa soa clichê e parece contar com linhas de comédia extremamente frágeis, isso é um equívoco, é pior do que parece.

Esse estilo de comédia francesa norte-americanizada, com um roteiro pronto de: Não há idade para amar, redescobertas e blá…blá…blá… Uma chatice sem fim. As mesmas piadinhas decadentes de sempre, sobre a falta de confiança dela, a negligência dela para novas tendências. Essa última situação, inclusive, é a única coisa que justifica a existência das filhas no argumento do filme, pois, sua participação é irrisória. Contando com tentativas de pincelar algum tipo de retrato social contemporâneo, vemos uma falta de estruturação e ritmo crescente. A fotografia é lavada e padronizada, não há nem esforço de criar alguma identidade ao filme. A montagem é dessas comédias-românticas contemporâneas, os planos não podem durar mais que cinco segundos, se não o espectador pode acabar vislumbrando alguma fragilidade na maquiagem, na atuação, na fotografia… ou qualquer uma das mil fragilidades do longa. Então, os cortes são velozes e desnecessários. A trilha sonora fica por conta dos clipes prontos de trailer ruim, de filme pior ainda. Sempre uma música de carrossel irritante, porém, gostaria de destacar o uso da música Danse Macabre, de Camille Saint-Saëns, que transita entre o grotesco e o patético.

Mas se estou soando agressivo para os fãs do pastelão de sempre, me farei menos direto para agradar os mimados dos textos de nariz em pé.

Trata-se de uma obra otimista e descompromissada, que está preocupada em ganhar o público através das breves identificações que pode ocorrer. Assim, agradará alguém que foi pego no gatilho da diretora. Por exemplo, “A vida Secreta de Walter Mitty”, pegou uma galera de surpresa, sendo surpreendida emocionalmente. E enquanto vemos a vida de Marie-Francine se desenrolando para um romance inesperado, podemos acompanhar sua relação com os pais, já desgastada pelo tempo, tentando fazer piadas através do inusitado. Mas como esses pequenos dispositivos não funcionam, o timing cômico passa a constranger a audiência. E quando eu acreditava que todos os clichês haviam sido cumpridos, lá vinha o final, mostrar que ainda cabia espaço para mais um, o maior deles. E sempre seremos obrigados a refilmagem de filmes que já se perderam no tempo.

Os próprios atores não parecem confortáveis no longa. A diretora-atriz, está irregular, seu namorado interpretado pelo experiente Denis Podalydès, igualmente. É uma falta de coesão e estruturação formal dentro da produção, que contamina o projeto. Não é possível crer em nada do que está sendo dito, as frases de efeito apenas irritam, o roteiro não sabe qual a verdadeira razão de ter sido escrito.

Assim como existe uma mentalidade deprimente sobre como uma crítica deveria ser escrita, o mesmo acontece com filmes de teor popular. Então, vemos pastiches de pastiches sendo lançados um atrás do outro. Nunca há algum conteúdo legítimo, apenas uma forma que é colocada diante do assunto e moldada para vender um peixe velho. A censura formalista, dos bons modos, mais soa como medo de sair da zona de conforto. E isto é exatamente o que vemos aqui. Algo, que não se impõe a pensar no que está sendo dito, apenas reproduz os mesmos ganchos narrativos, para estender o sofrimento por uma hora e meia.

Para ganhar dinheiro deve-se lançar um longa metragem, logo, vamos entupir de diálogos expositivos para cativar o público com a possível ingenuidade do roteiro, enquanto os estúdios lucram com o formato mais rentável do gênero. Tão válido quanto escrever uma falsa argumentação sobre uma obra que pode possuir alguma relevância temática social, elogiando-a para fazer média com determinado público, é fazê-lo para ganhar cliques, ou, neste caso, dinheiro. Ainda que seja carregado de pessoalidade, “50 são os novos 30”, consegue o que qualquer comédia barata atinge, público.

E não se preocupe, ele vai render, nos “cinemas cults da Zona Sul”, onde muitos não sabem o nome do filme e apenas pedem o ingresso “daquele filme francês ali”.

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