Um nó ainda não desatado

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017


Exibido no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro 2017, “No do Diabo” é um filme em episódios sobre a escravidão no Brasil. Cada sequência representa uma época que é tratada no todo pelo coletivo dos diretores e dos roteiristas Ramon Porta Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhesus Tribuzi, que se dividem e compartilham suas ideias em partes pensantes unânimes acerca do tema abordado.

É uma obra épica, de crítica social-histórica, por atravessar tempos sombrios e alimentados no incorreto passado. Um seriado autoral, militante e expositivo. Mas como em todo e qualquer desse formato, é um longa-metragem irregular. Alguns episódios ganham dos outros, ainda que a técnica seja tão cuidada quanto seu conceito.

“O Nó do Diabo” é um longa-metragem de gênero de horror-comportamental, contos pós-terror de psicologia realista-fantástica, em estudos de casos de causas, reencontros, consequências e reflexos em nossa vida do agora.

Há dois séculos, no período da escravidão, uma fazenda canavieira era palco de horrores. Anos depois, o passado cruel permanece marcado nas paredes do local, mesmo que ninguém perceba. Eventos estranhos começam a se desenvolver e a morte torna-se evidente.

“O Nó do Diabo” imprime um suspense de perigo iminente, à moda de “Os Inquilinos – Os Incomodados Que Se Mudem”, de Sérgio Bianchi; de um “Corra!”, de Jordan Peele; e de um “Mate-Me Por Favor”, de Anita Rocha da Silveira. São cinco tempos em paralelas histórias corais (núcleos autônomos), que se cruzam na ancestralidade do existir.

A câmera acompanha, passeia e roda no interior de um cenário de uma zona rural, fazendeira, pululada de poderes-pessoas (“guardiões da área”) e mitigada de regras e leis (“esquerdopatas do governo”), e entre detalhes, elipses e micro-ações minuciosos de conexão. Tudo, envolto em uma noite possui uma razão para acontecer, serve de pista-dica para solucionarmos os mistérios e tende a uma organicidade do cotidiano, como por exemplo, o despacho quebrado e a bola furada. “Voto democrático é para boi dormir”, diz-se.

É um terror social, uma paranoia assistida e vigilante da “pessoa errada na hora errado no lugar errado”, com matadores “sem remorso” e “carcarás que furam olhos de outros carcarás”, em uma distorcida trilha-sonora fúnebre. É a loucura, o surto e a possessão da crença egocêntrica e impedida de expansão. É um passado entranhado, um ruído intermitente de extermínios estimulados. O inimigo entra no covil, tornando-se um diabo sem limites contra “negros fugidos” por um povo “que se multiplica” de “velhos negros se juntando para ocupar”. Com ou sem sonhos de uma negra escravizada chorando sangue.

Não. O racismo ainda não acabou. É esta mensagem que o filme busca traduzir em uma explícita experiência catártica de suavizado viés ficcional. Aceitamos mais a insinuação da verdade que a própria realidade nua e crua. Uma “lavagem cerebral” de subservientes “fantasmas” reais (que querem trabalhar e não só receber bebida e comida, que precisam limpar o pé para entrar na Casa Grande em uma submissa e social necessidade do comportamento à etiqueta adequada).

É uma tortura do passado que realmente ainda encontra rastros (de enxergar negros como “doença” e ou “bichos”). Na exibição do filme no festival, a legenda de “Honey” (traduzida do inglês que quer dizer mel para “minha querida”) para a expressão “Nêga” (tratamento carinhoso e afetivo) causou desconforto por insinuar um desmerecimento desrespeito ao nosso vernáculo. É apenas um detalhe, mas incomoda. O filme não perde seu tom, e alimenta seu tom crítico pela ofensa do opressor (“Cabresto para aqueles preguiçosos que não sabem o seu lugar”) e pela ação radical do oprimido (de “comer terra para adoecer” – e seus fetos no lixo).

Aqui, não é comum perder a razão e não enlouquecer, adentrando em comungadas histerias coletivas. São “fascistas racistas” contra seres humanos. A escravidão continua com seus simbolismos entranhados, formalidades de uma cruel e hostil padronização (de “pensar certo, mas pensar pequeno”). “Ter ódio é igual veneno”, diz-se.

“Corrente quando quebra, vem a desordem”, diz um desumanizado ser. “O Nó do Diabo” é sinestésico. Nós sentimos as dores, os preconceitos, os orgulhos, as arrogâncias arianas, e lutamos pela vingança à moda catártica de “Dogville”, de Lars Von Trier, com a violência libertadora de Quentin Tarantino. É uma ira irreversível, de trás para frente. É um visceral faroeste negro povoado de fantasmas do passado e do futuro, do quilombo à favela, de quem “viveu esta vida e a que vem depois dela”.

“Depois que me matar, vai fazer o que?”, talvez esta retórica pergunta possa definir todo o filme. E assim, por que não rebater com outra: A Violência resolve a violência? Vingança justifica o que aconteceu? Será que resolve e modifica? O final perde-se, ficando conceitual, convencional, mais palatável e novela. Mas não tira o brilho necessário e de carga dramática da obra.

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