Um Filme Desobediente, Graças a Deus

Por Fabricio Duque

Durante o Cineclube Queer


Todo e qualquer diretor que desobedece a estrutura padrão do universo cinematográfico já merece a atenção de seu público. E ainda se o filme respeitar os próprios conceitos, então não só devemos correr ao cinema como também compactuar integralmente de sua arte.

Em seu mais recente longa-metragem, “Desobediência”, após a maestria arrebatadora de “Uma Mulher Fantástica”, o diretor Sebastián Lelio corrobora seu domínio absoluto em construir histórias e nos envolver em uma atmosfera sensorial de emoção espontânea, livre, cadenciada e mitigada completamente de gatilhos comuns, de ilusões narrativas e de característicos clichês indutivos, preguiçosos, arquétipos e caricatos.

“Desobediência” é muito mais que um simples filme lésbico e ou oportunista, tentando ganhar público pela temática direcionada. Na verdade, é um estudo de caso sobre o amor livre, que precisa quebrar barreiras e transcender a própria religião judaica, esta que, por ser sistemática e literal demais, faz com que seu seguidor-súdito sinta uma opressão paralisante, uma impotente limitação, uma sistemática e pululante resignação com seus “anjos, animais e homens”, e também com suas regras intransigentes, machistas, hipócritas e impossíveis de seguir.

“O homem é uma criatura com habilidade de desobedecer”, diz o responsável máximo em uma de suas pregações. Percebemos que o homem é figurativo e literal, visto que a mulher não participa dos procedimentos, permanecendo assim, distantes, sem serem enxergadas, à moda de um “The Handmaid’s Tale”, usando perucas para equilibrar (iguais a burcas modernas). Porém, uma dessas ovelhas desgarra-se, partindo para liberdade, abandonando os dogmas prisionais, esquecendo o passado “adolescente”, “continuando com o tempo” e fotografando idosos nus e tatuados.

“Desobediência” conduz-se por uma narrativa sutil e direta ao mesmo tempo. E em elipses continuadas. Há uma espera, uma suspensão do tempo, um convite a uma intimidade privada. Seus prévios acontecimentos são naturalmente desenvolvidos. Não há pressa. O desejo, controlado e ordenado. O impulso, procrastinado para manter aparências pautadas em observações alheias e fofocas espreitadas. Cada um sofre de um jeito. Não, o filme não permite que julguemos nada, nem ninguém. Nós representamos um tribunal da boa ação, da tolerância, da aceitação pluralista de dois seres e seus opressores.

A fotógrafa Ronit (a atriz Rachel Weisz) retorna para a cidade natal pela primeira vez em muitos anos em virtude da morte do pai, um respeitado rabino. Seu afastamento foi bastante abrupto e o reaparecimento é visto com desconfiança na comunidade, mas ela acaba acolhida por um amigo de infância (o ator Alessandro Nivola), para sua surpresa atualmente casado sua paixão de juventude, Esti (a atriz Rachel McAdams).

É um longa-metragem que acontece por mínimas e microscópicas reações. O olhar com surpresa. A hesitação do convidar. O confronto da volta à família, passeando na linha tênue entre um “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg, com “Carol”, de Todd Haynes. Uma precisa “resolver coisas do passado”, libertar amarras e zerar o presente. É uma radical oportunidade-terapia de choque. De desaparecimento. De “conduzir com honra a semana de luto” A outra, por sua vez, precisa também se libertar para que possa se acomodar na vida imposta e que aprendeu a amar. Um comodismo naturalista e genuíno, insistindo na condição massificada de sua submissão.

Nós entramos em vidas tão particulares e únicas numa fotografia enevoada, apática, crua, seca e padronizada de uma Londres arquitetada simetricamente. Nossos olhares precisam expandir percepções. Entender os constrangimentos. Criticar o preconceito enraizado e limitado dos outros pertencentes da comunidade e o medo internalizado de perder a “vida decente”, ainda que o sexo orgástico e explícito.

A “ovelha negra” diz o que pensa. Abertamente. Com perspicácia, sagacidade e um que espirituoso. Como por exemplo, “o casamento que acaba com a mulher” e ou o teor surrealista de sexo programado toda sexta-feira. É o amor poético versus a sensualidade. O orgasmo mentido (como proteção) versus a verdade confessional do real querer. Mas se assusta quando a ação à moda de “O Segredo de Brokeback Montain” ganha urgência. E a voz do sol aquece e brilha como uma luz incandescente.

“Desobediência” é um filme de cumplicidades, insinuações, delicadezas, dúvidas, conflitos, perdas, danos, ciúmes com explícitas referências a “Otelo”, intolerâncias da sociedade. É sinestésico, sensorial, que “vai julgando e excluindo”, entre suspenses iminentes da vida real e a música concerto de uma ópera que antecipa os feitos trágicos. É a liberdade versus conforto. A vida ao invés do querer. A responsabilidade da realidade versus a fantasia de um incompatível conto de fadas.

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