Pílulas-Críticas

Por Vitor Velloso


“Custódia” (Cotação: 3 câmeras)

Meu primeiro dia do festival Varilux, foi piorando gradativamente. O primeiro filme foi Custódia (2017), do Xavier Legrand, que conta a história de um casal recém divorciado, Miriam e Antoine, que estão no aguardo da decisão judicial sobre a custódia dos filhos, Joséphine e Julien. A partir disso, iremos presenciar os abusos cometidos pelo pai e toda sua possessividade quanto a sua família. A narrativa é contada de maneira pausada, buscando breves reflexões quanto às relações dos personagens, pequenos zooms em alguns detalhes intensificam a atmosfera, soando como uma bomba preste a explodir. A urgência que determinadas atitudes que deveriam ser tomadas, em contraponto com alguns planos longos, dão ao longa um ar de monotonicidade por grande parte dele. Mas o turbilhão de informações que recaem sobre os filhos, especificamente sobre Julien, o mais novo, rege o filme a partir de sua metade e cria essa iminência de uma tragédia que o impulsiona para o terceiro ato. Exatamente, onde o filme ganha o público, quase todas as construções feitas ao longo da obra são desmanteladas em uma sequência digna do gênero de horror.


“O Retorno do Herói” (Cotação: 2 câmeras)

Meu segundo filme foi a chanchada norte-americana dublado para o franc… Pera, o filme é mesmo francês? Ah, ok. Uma comédia francesa dirigida por Laurent Tirard, com Dujardin e Mélanie Laurent, que conta a história de Elisabeth e Capitão Neuville, que estão ligados por uma fraude, envolvendo atos heróicos do Capitão, armada por ela, a fim de motivar sua irmã, noiva dele, para melhorar de sua pneumonia. A narrativa é extremamente preguiçosa em desenvolver os personagens, apenas se preocupando com possíveis alívios cômicos permitidos pelo roteiro. Mélanie faz uma personagem forte, teimosa e calculista, enquanto o galã preferido da terceira idade, Dujardin, cria mais uma de suas caricaturas tediosas de personagem galante, conquistador e machista. Não há nada de novo no longa, nem mesmo suas piadas, já antiquadas e extremamente reutilizadas. Se dá para salvar algo do filme, uma pequena piada envolvendo machismo, próximo ao fim do filme, e o carisma mais que canastrão do francês, que, mais uma vez, entrega um projeto tolo e fútil.


“O Orgulho” (Cotação: 1 câmera)

A desgraça do dia chegou com “O Orgulho”, de Yvan Attal, a bomba fílmica se inicia de forma divertida, com piadas de humor negro, politicamente incorretos e o debate sobre racismo é válido. Porém, por algum motivo, desconhecido, o roteiro decide entregar todos os seus pontos ao colonialismo ideológico imperialista norte-americano, se utilizando de todos os clichês de filmes de mestre existentes na face deste planeta. Sim, eu estou irritado. O diretor, decide utilizar a música crescente, a câmera que se move por detrás dos ombros dos nazifascis…. ops, diretores da faculdade, para criar um drama digno de “Mutantes” a grande realização televisiva da história mundial. Eu juro, existe uma cena, onde haverá uma reconciliação entre dois personagens, um deles, é óbvio, tem que fazer o discurso motivacional mais brega da minha vida: “ A garota que eu conheço, não desistiria”. É impossível, sair da exibição sem estar irritado, pois a manipulação nociva, tóxica, ácida, flácida, plástica e inflamada que esta obra tenta enfiar na cabeça do espectador, ofende o processo de pensamento do ser humano. É possível que seja necessário algumas sessões de tratamento após seus olhos presenciarem a chacina de neurônios que acontece na tela.


“50 são os novos 30” (Cotação: 2 câmeras)

Meu segundo dia do festival Varilux, se iniciou com “50 são os novos 30”. Que narra a história de uma mulher de meia-idade, que após ser largada pelo marido, passa a morar com os pais e a buscar novos rumos para a sua vida. Um dos maiores problemas do filme são os seus personagens. Que não possuem nenhum desenvolvimento, todos eles são facilmente resumidos a dois ou três adjetivos. O humor do filme, funciona parcialmente. Algumas piadinhas geram breves sorrisos, outras apenas passam batido. Em geral, trata-se de um filme esquecível, com atuações que nada acrescentam à construção da obra. Dirigido pela própria protagonista, Valérie Lemercier, o longa irá agradar o público fã de filmes da sessão da tarde, com uma comédia romântica leve e descompromissada.


“Primavera em Casablanca” (Cotação: 2 câmeras)

O segundo filme do dia, foi “Primavera em Casablanca”. Dirigido por Nabil Ayouch, o longa possui uma trama fragmentada, com diversos personagens, que possuem uma ligação passada, não vou me aprofundar para não estragar alguma surpresa. O filme não sabe o que quer contar, atira para todos os lados, busca uma ligação temática entre as histórias para justificar suas separações, mas não consegue ser sólido em nenhuma de suas propostas. É muito frágil a forma como se constrói todas as ideias propostas pela narrativa, tudo é jogado no ar sem o menor direcionamento. A consistência, é algo que não existe neste filme. Então, quando ele tenta unificar tudo, no melhor estilo “Crash”, tudo soa extremamente vazio e sem alma. Infelizmente, pouco se salva no longa.


“Carnívoras” (Cotação: 2 Câmeras)

O último filme foi “Carnívoras” que marca a estreia de Jérémie Renier, e seu irmão Yannick, na direção. Contando a história de duas irmãs, Mona e Samia, e a relação delas a partir de seu reencontro. Samia foge durante o processo de gravação de um longa e permanece sumida por vários meses. A narrativa vai buscar o processo de reconciliação familiar, mas com a particularidade de estudar as personalidades de suas personagens, usando como ponto de partido o ego e suas variações. O problema é que o roteiro não sabe exatamente aonde quer chegar. Esse processo de autodescoberta, nos joga em uma jornada que não sabe contornar suas próprias ambições. E direção dos irmãos, é irregular, alternando entre pequenos formalismos funcionais, a alguns planos de composição contemplativos que possuem uma beleza plástica bem construída, mas que não se sustenta em um roteiro com muitos altos e baixos.

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