Como destruir uma memória

Por Vitor Velloso


Saber quais são os limites daquilo que se tem em mãos é a maior chave para o sucesso. Entender seu objeto, após amplo estudo, é ter ciência de suas fraquezas e suas potências. Tratando-se de “Jurassic Park”, não é tão complexo saber de onde vêm todas suas forças. Porém, tudo que dá dinheiro, hora ou outra, é corrompido.

A série de filmes, já sofreu a partir de seu segundo longa, de 1997, onde víamos o cerne do sucesso do primeiro ser abandonado pela megalomania dos engravatados por trás dos estúdios. Após a conclusão da trilogia, em 2001, anos depois, foi anunciado o novo “Jurassic Park”, que agora viria a ser conhecido como “Jurassic World”. O primeiro longa dessa nova trilogia anunciada, já havia sofrido com as críticas por parte do público. Ainda assim, uns defendiam a nova cara que havia sido dada ao projeto bilionário. O filme rendeu, e muito, foi a quarta maior bilheteria da história do cinema. Sua continuação é lançada agora em 2018, trazendo o “fim do mundo jurássico”. Um vulcão, presente na ilha onde o parque do primeiro funcionava, entra em erupção, colocando em risco toda a vida dos dinossauros.

A trama soa interessante à primeira vista, várias discussões relevantes poderiam ser trabalhadas. Acontece que o filme passa por todas essas discussões nos primeiros 30 minutos, atropelando-as, e parte para aquilo que o importa, ação. Curiosamente, nem isso se mostra relevante. A fórmula da série se vê desgastada, as pequenas referências já não possuem o mesmo impacto, os dinossauros não empolgam mais. E isso se agrava com o passar da projeção, pois, cada passo é previsível e repetitivo. Chris Pratt parece não estar empolgado. Até mesmo seu carisma sofreu impacto. Bryce Dallas Howard permanece exatamente igual.

Se nos primeiros 10 minutos, temos uma introdução à problemática da trama, mas que possui algum grau de entretenimento, o mesmo não se pode dizer do restante. Quem assina a direção é Juan Antonio Bayona, que constrói a destruição da ilha a partir dos clichês de filme desastre. Os artifícios emocionais são retirados das personalidades dos personagens, mas que aqui se encontram acuados pelo roteiro. Todas as possíveis relações de animais em extinção, que a trama permite, são pinceladas por alto, em uma imagem específica. É bonita, é tocante, mas é solitária. E por mais que as intenções, da primeira metade, sejam sinceras, tudo é regido de forma distante. Os mesmos maniqueísmos dramáticos são utilizados, os arquétipos de militares, políticos e empresários são mantidos idênticos ao anterior. Compreendo que parte do conceito exige esta atitude, mas nada foi alterado, nem uma vírgula.

E quando tudo se repete, exceto a história, vemos uma segunda metade sofrer uma reviravolta que nos traz ao mesmo assunto do seu antecessor. É triste ver como uma fórmula de sucesso se perde e se repete em um looping de mediocridade e preguiça. Que a indústria está interessada apenas em números, todos já sabem, o problema é quando o resultado final, diverge de todas as expectativas do público mas não na intenção de surpreendê-lo, e sim por uma falta de criatividade tóxica. Esse sintoma que afeta Hollywood, está longe de ser antigo, mas se intensificou de um tempo pra cá. Os produtores da franquia precisam entender que o mercado mudou. Hoje, vivemos uma era onde a narrativa foi deixada em segundo plano, e as sensorialidades foram trazidas como objetivo principal de um blockbuster. Apenas ao observar os filmes recentes de super-herói vemos uma descontinuidade da trama, suprindo todas as emoções possíveis retiradas dos dispositivos da adaptação e de suas novas visões sobre seu assunto. Claro, parte deste público é mais conservador quanto ao tratamento geral, e exige explicações de determinadas escolhas, e uma fidelidade precisa. Por isso, o ideal, é conciliar as duas partes. Brincar com as ascensões do roteiro, mas se utilizar da tecnologia para o entretenimento puro. Minha última sentença pode desagradar alguns, mas, é a verdade. Nostalgia é algo que Spielberg entende como ninguém, por isso a franquia existe. Mas esqueceram exatamente aquilo que a compõe, diversão. Esse saudosismo inocente do retorno à criança.

A Disney está sugando tudo aquilo que dá, com Star Wars. E a Universal, Jurassic World. Veremos o fim da franquia, por esgotamento. Será necessário uma nova trilogia para salvar o conceito? E irão corrompê-la também. Hollywood não cansa de assassinar suas criações. Infelizmente, esses produtores destroem a memória da original, não trata-se de saudosismo, pois, eu sou a favor da repaginação de velhos clichês e de revigorar alguns clássicos, mas o bombardeamento de reboots e remakes, vai, aos poucos, apagando a importância que aquilo tem para algumas pessoas. Essa produção super rápida, banaliza a essência que deveria manter-se ao longo do tempo.

O novo filme do Jurassic World, é deprimente e tedioso. A direção do Bayona, é imprecisa. E o roteiro de Derek Connolly e Colin Trevorrow, repetitivo, preguiçoso, falho. Uma péssima memória para o fãs da franquia.

Críticas Relacionadas

Crítica: Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros

Uma viagem ao tempo da nostalgia cinéfila

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados