Primeiro Dia: Carta Aberta

Por Gabriel Silveira


A cerimônia de abertura da CineOP começa com parte do discurso de Torquato “Como apreciar Godard e Fellini e não amar Zé do Caixão? Como não abraçar por completo nossa breguiçe subdesenvolvida?. Na chamada da equipe do festival ao palco fragmentos rajantes de vaias são proferidas ao prefeito Julio Ernesto. Ouro Preto é obviamente uma cidade brasileira. Onde estão as aulas nas escolas? Ninguém sabe, ninguém aponta. Clipes de discursos tropicalistas são projetados, Caetano, Gil, Zé Celso. Isso aqui é o que? Uma Masterclass de como revolucionar? Não, não rola esse lance de revolucionar como estes revolucionaram. Uma revolução cultural contemporânea não pode acreditar que ser pastiche daquela turma é ok. Ainda estamos presos àqueles fantasmas, é como se aquele fosse o único jeito. Foi um dos únicos. Oswald de Andrade. Este modernismo. Fez-se por onde, no entanto, há quase um século. Sim, canibalizar a nós que canibalizamos tudo. Afinal, é aquilo que temos, já que das raízes originais nada sobrou. Só a mistura, que acredita que é original. E agora veio a ser, é o único chão que temos, os únicos irmãos a quem podemos dar as mãos, filhos das mesmas mães violadas por aqueles que só sabiam gastar gente. A voz de Gal chama a Índia. Ela não precisa vir a palco algum, tá na poltrona de todos os presentes — querendo estes ou não. Afinal, estamos todos aqui celebrando a Índia brasileira que é, também, síntese do pecado original. O rosto, o escárnio, o grito, o rock, o samba projetado por aquele corpo que tanto dilacerou as mazelas da alma nacional. Sob a direção daqueles que precisavam pecar em dobro, ela o fez. Gritou, gritou, gritou e gritou. O desespero nosso de cada dia gritado pra ninguém ouvir, já que, da nossa ferida infeccionada todos fingem ouvir. Sob os holofotes ninguém retira-se, nem um único movimento em sua poltrona. É, Maria, você gritou, quase ninguém ouviu. Norma Bengell ouviu, na verdade, por dez minutos, sem a necessidade do verbo, ela falou muito de ti. Daquele teu olhar de escárnio, a potência da projeção de teu texto. Mas, novamente, o teu olhar, capturado pelo acetato com uma singeleza que somente aquele refletor obtuso poderia potencializar. O olhar de Marielle também brilhou na tela, exatos três meses depois. Depois de Neville pegar o microfone, começa o show. Lá vem, chega dessa história de saudades, o lance é lamber chão daqui com asfalto e tudo. Dá-lhe o primeiro plano do Bonitinho entrando no plano fazendo bonitice. Entra Helena Ignez, lá vem ela com a cara do escárnio. “Como que se alimenta seiscentos filhos com oitenta milhões de brasileiros, criatura?”. Ninguém sabe, já que faz dois mil anos, cinco mil anos, SEIS mil anos que fome tá aí. Mas sabe de uma coisa? A culpa deve ser de quem cuspiu na escada. Se este que cuspiu sai impune eu não sei, mas, que a sequência do Vidigal aponta uma intransponibilidade do âmago do espírito de Brasil e seu cinema é inegável. A câmera que parece perdida e a deriva é, na verdade, incisiva e obtusa em tudo que enquadra. A mise-en-scene do caos, Rogério fora de quadro dirige aos gritos um Loreiro que não é mais Bonitinho (não sei nem mais se é Aranha), uma Helena que se diz América, quase inerte, apenas observando com o silêncio da análise uma Gladys que desce o morro gritando o hino nacional “MAS QUE FOME! QUE DOR DE BARRIGA!”. Provavelmente um dos mais singelos retratos de nosso discurso; o povo descendo o morro junto daquela objetiva, sem canto algum àquela bandeira positivista. Então o sertão não virou mar e o mar não virou sertão porque o Diabo nem foi tanto assim com a nossa cara? Ou porque deveríamos ter pecado além do dobro para este país virar ao avesso? Nessa terra de brasileiros e anti-brasileiros, só mesmo Luiz Gonzaga para salvar. Isso tudo não se repete. Estas obras eram úteis em sua própria maneira, o Brasil e seu cinema, música, teatro e em todos os viés de sua expressividade cultural, não têm mais tempo para infames futilidades. Não, esses filmes não vão encher a barriga de ninguém, acabar com a sede ou a dor. Mas se nem temos mais a coragem de tratar de nossos espíritos, para que esta audácia no falar em vão?

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