Objetos de cena

Por Vitor Velloso


Por vezes no cinema, vemos alguns autores serem re-imaginados por novos diretores. Essa quase cópia, que se confunde com homenagem, é fruto de uma profunda admiração por determinada forma fílmica e determinado sensibilidade. “O caminho dos sonhos” é um filme que deve sua construção à Bresson. Essa referência é extremamente óbvia, nos personagens, suas motivações e o trabalho da câmera. O universo é muito frio, muito simples e muito cínico. Porém, é necessário dizer, que ainda assim, ele é único.

A trama conta uma história difícil de simplificar, mas em geral, um casal que se conhece durante as férias é obrigado a se separar, apenas anos depois torna a se encontrar. Eu não quero contar mais que isso, pois a construção dessa narrativa é o que vai fazer as pessoas gostarem ou não, pois, o ritmo é bastante lento e pausado, os diálogos não possuem vida, os personagens são monótonos e a crueldade é normatizada, exatamente como Bresson. A diferença está no foco narrativo e em pitadas de Gus Van Sant aqui e ali. Este foco a que me refiro, traz a história para um patamar muito diferente, ela importa em uma escala menor que o convencional. Ela passa a ser um alicerce para os personagens. Logo, é muito fácil se perder. Compreender de fato o que está acontecendo, é uma tarefa árdua.

Angela Schanelec, diretora do longa, é habilidosa em construir um grau de intimidade com um afastamento quase que por impulso, de desconfiança, a partir da natureza do ser humano. Ela não busca necessariamente o afeto ou ódio, em seus atores, mas sim aquilo que os move, essa força motora que os mantém em cena. Por isso sua mise-en-scene, possui esse ar frio e calculista, pois a natureza do ser humano como ser social é anulada na estrutura do pensamento. A ação ganha a forma como Vontade de agir. É incômodo, não há como negar. É quase que desafiar o espectador a seguir um pensamento que vai contra seu processo natural e exigir uma resposta no tempo da montagem. Mas os olhos do espectador, são guiados pela contemplação de pequenos detalhes dramáticos e gestos duros que parecem absurdos, mas o que não é?

O filme explora as fraquezas de seus personagens à medida que sua construção se solidifica. Essa inversão de expectativa, gera uma percepção mais apurada dos movimentos dramáticos, pois, as coisas parecem frígidas e frívolas, onde se encontra o peso que o sustenta. As relações são sinceras e sutis, mas com a dimensão de digressão narrativa, somado a descentralização de suas emoções, elas parecem ser falsas, forjadas. E este processo de percepção é extremamente importante para a maneira com que se desenvolve, ele depende disso.

O filme é lindo, as cores são maravilhosas, a fotografia se destaca em pequenos planos, a luz está sempre presente. Ele foi filmado em película, então ele tem uma textura muito própria que corrobora com essa intimidade que o longa quer falsear. E existe uma intertextualidade quanto a ficção, realidade e uma verdade mutável que é sugerida próximo ao final do filme que intensifica uma percepção que havia feito ao longo da projeção. Um esforço em mostrar uma realidade dentro da outra, algo que o Kieslowski fazia com bastante frequência, através de um outro olhar, claro. E algo que o Fassbinder buscou fragmentar e horizontalizar, chegando ao ápice em Berlin Alexanderplatz.

Essa naturalismo que é imposto sobre o olhar do espectador, nos soa estranho como forma fílmica a partir de alguns planos. Vemos um protótipo de cinema de fluxo surgir na tela e nos causa choque, pois a quebra do contexto acontece de maneira extremamente delicada, mas precisa. E quando o longa precisa cortar o nervo narrativo, para nos tirar do local de conforto, ele o faz sem hesitar. Essa necessidade de se trabalhar na vitalidade do objeto que é trabalhado, parece cruel à primeira vista, mas logo se entende, que trata-se de um dos maiores atores de compaixão de uma diretora por suas criações e seus arcos. Lembro-me de uma fase que um personagem diz em Silêncio, dirigido pelo Scorsese: “Será que a atitude de Judas não foi por amor?”

Esse olhar niilista através das coisas e dos acontecimentos, que servem de espelho para as ações dos personagens em cena, vai de encontro a esta intimidade construída no filme, gerando uma obra extremamente próxima mas que nos afasta lentamente, a fim de nos proteger de seu fim. Ele é inevitável, mas necessário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados