Auge da Nostalgia

Por Vitor Velloso


A produção nostálgica brasileira parece estar em alta. Uma retomada a uma historicidade do século XX vêm sendo retratada nas telonas, até mesmo com o resgate de personagens e ícones em biografias sejam ficcionais ou não, provam isso. Parte desse retorno ao passado parte de um princípio caótico atual, não conseguimos ver referência na contemporaneidade, logo, há um retorno imediato na memória, para se entender uma construção momentânea, a fim de achar respostas para nossos problemas atuais. As chagas de 64, que ainda permanecem expostas, é uma das fugas mais fáceis de se pensar, até por uma questão etária, é a geração mais velha que temos no país hoje, a que nasceu na década de 40 e viu o golpe ainda quando jovem. E faço uma mea culpa quanto a isso, como cinéfilo, recorro muitas vezes ao cinema brasileiro da década de 60 e 70, buscando entender como chegamos ao mercado atual, mas também referências estilísticas.

A trama dirigida por Tuca Siqueira, conta a história de Miguel e Lúcia, que comemoraram recentemente 40 anos de casamento, com lembranças fortes da ditadura, já que militaram juntos, são surpreendidos por Maê, que viveu uma história de amor com Miguel no passado, revelando diversos segredos do trio amoroso. A narrativa é conduzida com extrema paciência, planos longos e estáticos. Que remontam uma monotonia na relação dos personagens com a idade e seus corpos. Porém, o roteiro busca o tempo inteiro uma sensualidade, emotividade, nostalgia e uma beleza em determinadas cenas, que não possuem toda essa carga, e busca, pelo diálogo, uma lapidação desses contornos emotivos. Um pequeno problema, grande parte dos diálogos, não são bons. São forçados, são novelescos e, infelizmente, as atuações seguem esse modelo, com pequena exceção da Juliana Carneiro, que interpreta Maê, que ainda assim, possui momentos muito frágeis.

Se em “BR 716”, Domingos de Oliveira, retratava a paixão boêmia, as sensorialidades desses futuros revolucionários, através de uma nostalgia muito óbvia, pela fotografia, pela ausência de cor e no trabalho da câmera. Em “Amores de Chumbo” esse dispositivo torna-se mero aparato ideológica que passa a ser utilizado como muleta para um desenvolvimento bastante falho de tensões amorosas e fantasmas do passado. Essa coisa do filho se chamar Che, dele bradar a revolução e tudo mais, introduzida no contexto que é filmado, ampliada para as diferenças históricas dos personagens, é de uma decadência ímpar. Não seu discurso, mas todo o contexto que o envolve. É uma proposta muito pueril de discurso ideológico. Não dá força ao personagem, não o compõe da maneira esperada, é um mero objeto do texto.

E Steinberg, já concluiu que todo revolucionário, “vanguardista”, uma hora torna-se aquilo que enfrentava. E esta afirmação está absolutamente correta. Vemos isso no filme do Domingos, comparando seus filmes atuais com os seus mais antigos, como “Todas as “Mulheres do Mundo” e “Edu, Coração de Ouro”, vemos que sua cinematografia se normatizou. E o saudosismo é, sem dúvida,um dos elementos mais nítidos dessa mudança de paradigma no pensamento do cineasta, ou da pessoa, em si. Então, se a ideia do filme era fortalecer o personagem através desta junção de características, não só falharam, como fizeram o contrário.

A memória como instrumento histórico e político é muito complexa, pois, ao partir de qualquer ponto de vista/vivência, a verdade sofre uma distorção de perspectiva. Pois o fato, pode existir, mas a verdade sofre mutação. E como qualquer vida é guiada a partir de decisões, escolher uma coisa, irá gerar a frustração de não ter escolhido a outra, ou vivido. Partindo deste ponto, Andrew Haigh, em 45 anos, constrói com muito mais eficácia a memória que não foi vivida, a verdade que não pode ser reconstruída e um sentimento extremamente ambíguo, construído a partir da dimensão histórica, da lembrança e de uma vida ao lado de alguém, contra uma coisa que poderia ter mudado tudo, mas só foi revelada tantos anos depois.

Uma pena essas possibilidades terem sido perdidas na construção do longa nacional, havia material para isso e havia competência. O filme possui acertos, ainda que esporádicos. Existe um plano de Maê e Miguel em uma antiga cela de tortura que parte de sua construção é muito bonita, sincera, íntima e até mesmo sexy, num sentido muito puro da palavra, uma sedução pela lente. Mas que se enfraquece por determinados diálogos que quebram o espírito da cena.

No final, as intenções são boas. Mas de boas intenções o inferno está cheio. Apenas fico triste da oportunidade que foi desperdiçada.

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