Didática interior

Por Vitor Velloso


O autismo sempre foi tema de tabu, em muitas discussões comportamentais, principalmente para os não especialistas, eu. Confesso que meu conhecimento sobre o tema é bastante limitado, porém, recentemente um membro da minha família foi diagnosticado com a condição. Exatamente como foi dito no documentário, ao chamá-lo, não respondia, nem a outros estímulos. E por isso, acredito que o filme tenha sua função social, não um panfleto clínico, nem uma manifestação militante sobre o assunto. Apenas pela sua didática, ainda que excessiva em determinados momentos, que funciona como retrato humano de uma situação que afeta não só o autista em si, mas todas as pessoas que o cercam.

O filme já parte de uma proposta moral, autismo não é doença. E esse pensamento rege a construção da obra, se utilizando do argumento para enfatizar as relações apresentadas no longa. Chegando a retratar o autismo como uma condição de existência, a película recria a imagem comportamental ao olhar dos não envolvidos. Mesmo que não haja preconceitos e problemas relacionados ao assunto, a ignorância que permeia estas visões, é o ponto chave da proposta fílmica. Flávio Frederico e Mariana Pamplona, que assinam a direção, são eficazes com a análise de seus personagens, todos jovens, o mais velho com 18, eles capturam momentos bastante íntimos de seus cotidianos. Alguns planos de insert, ilustram parte das características dos sintomas, se é que possamos chamá-los assim. Uma câmera com o foco bem definido, que se encontra em breves situações, em detalhe.

O filme perde um pouco seu ritmo na introdução de algumas entrevistas, pois quebram o fluxo narrativo de alguns assuntos específicos. Assim sendo, por volta de 45 minutos de filme é possível que parte dos espectadores fiquem cansados, levando em conta ele ter apenas 1h10 de duração, não é um problema grave. Porém, com a sequência que se faz sobre determinados estudos, ficamos à deriva por tempo excessivo de algumas explicações, exemplo, sobre o comportamento agressivo esporádico dos autistas. Entendo que certas respostas não podem ser dadas, pois nem mesmo os especialistas conseguem delimitar o redoma que cerca suas percepções sensoriais, mas, quanto à violência em pequenas atitudes, essa explicação é dada, apenas vem de forma tardia.

Em outro momento temos a introdução do trecho de um curta-metragem que retrata a hiper sensorialidade dos autistas, o problema é a forma como isto é introduzido, vem completamente aleatório e agressivo quanto o próprio campo imagético do longa. O argumento que esta espontaneidade é a intenção para que possamos testemunhar de fato o acontecimento, não é tão sólido, pois, o filme inteiro parte em uma estrutura didática. Este fragmento, buscar uma dialética momentânea, soa como uma digressão informal, um simples desvio de discurso.

A música do filme não cativa, porém, determinadas utilizações são no mínimo curiosas, como a que o abre, O Quereres na interpretação do Caetano Veloso. Buscando este pensamento de divergência entre lampejos de realidade. E a música final… que vou deixá-la incógnita. Para além, existe uma faceta das mães, que os diretores exploram superficialmente, onde vemos uma certa imperatividade em suas vontades quanto aos seus filhos, por exemplo: “Eu queria que ele pudesse fazer tal coisa”. E é claro que sim, que mãe não gostaria que seus filhos tivessem plenas capacidades individuais? Porém, mais a frente, um pouco diacronicamente, confesso, uma discussão é levantada, mas não desenvolvida, infelizmente. Existem mães que militam com relação a esta condição, que parte levanta uma bandeira de orgulho, parte de tristeza. “Não há do que se orgulhar, nem o contrário também” diz uma especialista. Pois, ainda que exista progresso no tratamento e o desenvolvimento seja visível, os sintomas sempre permanecerão, é algo muito instável e nebuloso.

O que não significa, que não seja gratificante testemunhar uma luta com avanços, mas, ela não tem fim. E na minha humilde opinião, parte desta militância tóxica, que a especialista se refere, possui um valor de egocentrismo que confunde dignidade e orgulho, e este campo ético, é muito mais complexo do que achismos. “Em Mundo Interior”, como o título sugere, busca adentrar neste universo, desconhecido por muitos, de forma didática. É efetivo e informativo, mas peca em pequenas decisões que acabam comprometendo o resultado final, mas acho importante o suficiente para que seu conteúdo se sobressaia à sua forma.

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