Entre caças e caçadores

Por Fabricio Duque


Há uma tendência na cinematografia francesa de se aproximar das características inerentes dos filmes com um que mais hollywoodiano. Não há nada de errado nisso. É apenas mais uma opção livre-arbítrio que todo e qualquer diretor possui, como um embasamento às próprias referências, inclinações e afinidades.

Em “Vingança”, além de ser um desses exemplos, ainda insere um corajoso e curioso elemento ao sabermos que este foi dirigido por uma mulher Coralie Fargeat, estreante em um longa-metragem, que por sua vez realiza um filme de gênero, um terror psicológico à moda amadora sanguinária de Robert Rodriguez com Quentin Tarantino. Nós inferimos “Um Drink no Inferno”, “Planeta Terror” e muito “Kill Bill”.

“Vingança” é muito mais que um filme de sobrevivência no deserto americano, em Los Angeles (quase “Canadá”). É sobre a necessidade do ataque. De se impor em uma sociedade machista que enxerga mulheres como objetos sexuais e como seres primitivos para atender unicamente os instintos dos machos (com suas cumplicidades e lutas livres na televisão), desejosos por egoísta diversão no exato momento em que querem sexo.

Assim como na maioria dos filmes de gêneros, características genuínas precisam ser relevadas. A edição de perigo iminente, a narrativa tensionada, as previsíveis reviravoltas, os gatilhos comuns da arma sem bala e do carro sem gasolina, por exemplo. Sim, há tudo e mais um pouco. Nada é poupado.

Porém, o longa-metragem alcança sua maestria quando nos presenteia com uma plástica, vívida, contrastada e saturada fotografia de um sol quente após o meio-dia em um dia muito quente. Só que não é só isso. Nós somos conduzidos com a mudança imagética pela transmutação da personagem “dura de matar”, uma “Highlander” moderna unida à força “MacGyver” de ser, sem esquecer o final apoteótico de “Sr. & Sra. Smith”, de Doug Liman.

“Vingança” é um filme de liberdades poéticas para que seu conceito apareça e cresça. É a trajetória de uma “Spring Breakers” (de Harmony Korine) “cérebro de ostra” que se transforma em uma “Lucy” (de Luc Besson) “Tomb Raider” (de Roar Uthaug, com Alicia Vikander – quem a personagem deste se assemelha muito) “Furiosa” em um universo “Mad Max”, numa visão metafórica de sua morte pós-apocalíptica em um deserto de caças e caçadores, embalado por “peyote” e alumínios “salvadores”, por uma fotografia mais árida e rochosa e pela unilateralidade da obrigatória revolta.

Três homens casados e ricos fazem anualmente uma espécie de caçada no deserto. Desta vez, um dos empresários decide levar sua amante (a atriz italiana Matilda Lutz, de “O Chamado 3″). Quando ela é abandonada para morrer devido a uma série de acontecimentos, eles terão que lidar com as consequências de uma guerreira mulher.

“Vingança” é sobre a visão representativa da mulher perante os homens. É um visceral e violento filme catarse, em que o sangue esvai-se do corpo e suja literalmente a tela da câmera, nossos olhos na verdade. Somos confrontados com este estudo de caso. Sobre a sexualização exacerbada da mulher. Sobre o machismo desenfreado do homem. E sobre a “troca” sexual.

Na cabeça dos machos, as insinuações flertes das frágeis “caças” querem dizer sempre sim. O não não é uma possibilidade levando à força. O estupro é visto por esses limitados seres como uma consequência legal e permissiva. De um jogo feminino que o não é sempre um sim. Assim, a vingança é inevitável. Mas neste caso, a “amante vadia” precisa morrer para não deixar rastros que comprometam as vidas desses ilibados e casados homens de bens. É uma aventura. O que fica em L.A. fica em L.A. Ou no Canadá.

Mas há um certo amadorismo na construção do roteiro, preguiçoso e confortável na padronização, em que todo mundo é um co-autor porque intuímos com facilidade e obviedade o que acontecerá nas próximas cenas. Se fosse uma prova final, então estaríamos aprovados com louvor e nota máxima. Concluindo, “Vingança” é um filme para esquecer dos pormenores, apreciar a atmosfera de terror psicológico, para deliciar os olhos com a incrível fotografia e lutar pela mocinha indefesa contra os monstros “franceses” americanizados.

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