O Cara Que Criou o Brasil

Por Fabricio Duque


“Bonifácio – O Fundador do Brasil” faz uma homenagem a José Bonifácio de Andrada e Silva, personagem de nossa História brasileira. O documentário, dirigido por Mauro Ventura, baseia-se na Teoria das Doze Camadas do filósofo e pensador Olavo de Carvalho para traduzir e adjetivar existencialmente o “cara que criou o Brasil” e que o primeiro objetivo foi “tomar posse do próprio corpo” (assim como todo e qualquer ser humano.

Em uma narrativa linear, detalhada, informativa, didática, processional e de estrutura de contagem de histórias, o filme, que intercala imagéticas reconstituições-cenas ficcionais, configura-se como uma real aula de História pelo classicismo de sua condução de entrevistados estáticos na frente da câmera.

Dividido em datas, “Bonifácio” desenvolve-se pelo poder dramatizado da palavra, pela carga épica de sua música que rasga a tela. É a epopeia de uma trajetória que quer o definitivo. Uma viagem existencialista por curiosidades, fatos, definições de efeito e pela filosofia humanista e analítica da genuinidade do ser humano. É um olhar respeitoso e enaltecido de uma figura pública que “mudou e progrediu o Brasil”, que ajudou no início da Revolução Francesa.

Com a frase “Os que não têm medo, comandam os que têm” o documentário é iniciado, entre ilustrações que ganham vida em uma fotografia nostálgica e solar. “Quem eu sou?”, pergunta retoricamente José Bonifácio.

Então nós somos somos conduzidos a possíveis respostas embasadas nas “camadas” (“a síntese da personalidade”) filosóficas do resumo indicativo de uma das palestras de Olavo, ”As doze camadas da personalidade humana E e as formas próprias de sofrimento”.

“Para cada uma dessas mudanças, muda como um todo, e o todo só pode mudar em relação a alguma coisa e essa coisa não pode ser as suas próprias partes, portanto tem que ser em relação a algo que lhe esteja interno, no caso, externo à personalidade, e em relação ao qual esta vai assumir diferentes posições no percurso da vida”, cujo trecho assenta o espectador nos embasamentos apresentados.

“Bonifácio – O Fundador do Brasil” é o maior Crowdfounding cinematográfico brasileiro, com duas mil pessoas que contribuíram e apoiaram financeiramente com o projeto (arrecadando trezentos e oitenta mil reais). “Tudo que está para ser dito, está no filme. Temos oitenta e três minutos de grandes homens, pessoas notáveis, dizendo tudo que precisa ser dita a respeito do personagem que a gente retrata no filme”, disse o diretor na apresentação da pré-estreia no Cinema Odeon, na Cinelândia, no Rio de Janeiro.

Entre tomadas aéreas, “síntese dos principais líderes americanos”, Virginia, Washington, Coimbra, Rio de Janeiro, São Paulo, frases patriotas, paralelismos esportistas, Bonifácio é comparado a Thomas Jefferson pela “grandeza” de sua obra em “transcender” e por uma biblioteca de mais de mil livros. “O que este personagem queria em cada etapa da vida?”, pergunta-se.

A trajetória do homenageado é traçada de forma detalhada: “metódico ao escrever”, “criterioso”, via o “progresso como uma profissão”, “conquistou a auto-confiança”, enfrentava os professores com seus contrários pontos de vista, gostava de conversas longas (com “a ironia do humor inglês com a má-língua dos palavrões”), “revolucionário mas conservador” (seus “paradoxos sintexados” de não “gostar de manifestações de rua”), namoradeiro porque “ninguém é de ferro”. Está tudo aí, até mesmo a “crise da maturidade” e seu “componente humanitário em sua biologia”.

Há no documentário duas partes. A segunda é quando Bonifácio torna-se Coronel, saí da crise, tudo embalado em uma espetaculosa e performática música de efeito que quer de qualquer jeito manipular uma ingênua emoção. Não havia necessidade para tal rompimento da narrativa. Assim, a quebra destoa seu ritmo e sua cadência maestra um padronizado e confortável clichê limitado (sem inovação) para a aceitação do público.

Esta talvez seja seu epílogo do romantismo do século XIX, de um passeio turístico por monumentos históricos, a influência no Dia do Fico, na Independência do Brasil e na escolha das cores da bandeira, o Palácio Imperial em Petrópolis e Paquetá (os últimos dias). Bonifácio queria a “unidade nacional”. Um ser que tomou posse do destino (muitas vezes por “intervenção divina”) até transcender de uma “vida que poderia ser e não foi”. É bastante curioso que quanto mais ouvimos sobre nossa História, mais tenhamos a percepção de que tudo parece um grande e ficcional romance que atravessou o tempo.

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