Aquela brincadeira de Kiarostami mal feita

Por Gabriel Silveira


Iván Granovsky parte com o argumento, a propósito de “Los Territorios”, de que o seu projeto é uma espécie de ataque obtuso ao espírito revolucionário inerte de uma elite doméstica que anseia desesperadamente por qualquer tipo de movimento/atividade/ativismo político. Como uma sátira, um escárnio na cara destes pequenos burgueses que furtam dos cofres e cartões de créditos de seus pais para financiarem seus projetos artísticos/políticos enquanto geram dívidas com meio mundo por meio de suas ofertas de projeto que acabam nunca vingando, já que a Vontade que há dentro deste peito guerrilheiro é apenas um sentimento fervoroso de auto-validação. O tipo de indivíduo que vende a farsa de que deve fazer filmes políticos como destino manifesto enquanto chega num set de filmagem sem fazer a mínima ideia daquilo que está fazendo.

O filme de Granovsky expõe a personagem de Iván como um dos mais patéticos exemplos da turma explanada acima. Um irresponsável, carente de qualquer tipo de fibra moral, que intitula-se um produtor de cinema, um filmmaker, que havia tentando realizar três longas fadados ao fracasso. Infeliz com sua condição de indivíduo cinematográfico, parte, então, para um grande mochilão pelo mundo a procura de propósito. De início parte para a Alemanha a propósito de concluir uma pós-graduação em história na tentativa de seguir os passos de seu pai. Este, graduado em história, que decidiu não seguir carreira acadêmica a fim de tornar-se um indivíduo comprometido com seus deveres político, acaba enredando-se numa carreira jornalística como correspondente de um jornal argentino. Durante sua formação, Iván acaba construindo uma projeção de seu pai onde este era um verdadeiro guerrilheiro que dava voltas ao mundo expondo a verdade dos horrores da guerra, ilusão que acaba por terra quando o filho descobre que aquele era, na verdade, apenas um correspondente político que andava a passear em jatinhos entrevistando presidentes de diversas nações.

Seguindo pelas desilusões, Iván decide partir em seu mochilão de repórter freelancer financiado pelo edital da Conta do Banco de Sua Mãe e o Livro de Dívidas da Equipe Que Não Pagou a procura do próximo grande furo de cobertura da política internacional. Começando pela América Latina, Granovsky dá uma volta com sua equipe procurando enquadrar o personagem/diretor no meio dos zênites de efervescências de manifestações populares, tentando pintar essa imagem deste adulto revolucionário que, por onde passa, está sempre a procura da próxima causa a ser lutada. E no meio deste vulgar anseio pelo próximo grande furo, Iván passa a externalizar uma obsessão que é alimentada pelo resto da projeção inteira: o front de batalha. A auto estima miserável da personagem embasa-se numa vulgar romantização do ofício de ativistas políticos e correspondentes de guerra, ao ponto de afirmar durante uma entrevista com seu próprio pai, a respeito das experiências deste durante a ditadura militar argentina, que aquele foi o momento em que sentiu-se mais próximo da experiência da guerra.

Iván, o tipo de cara que afirma “Me encanta escuchar una chica hablar de política”, tenta cobrir o espírito parisiense pós-Charlie Hebdo, uma entrevista com um jogador argentino da Champions League, outra com um membro da ETA na Espanha, escrever um panorama da crise econômica portuguesa fazendo uma visita a Coimbra, entrevistas com Evo Morales, Alí Rodríguez Araque e Lula (estas montadas como breves inserts que fazem dos políticos vazios totens ilustrativos), visita a Grécia procurando fazer uma cobertura da situação da hecatombe dos imigrantes que tentam chegar a Lesbos pelo porto de Mitilene; todos estes assuntos são tocados com a esterilidade, a impotência e a distância frígida que a personagem expôs em sua relação para com tudo que circunda suas vontade humanas durante toda a projeção. Para então, no fim, após tentar fazer um panorama expositivo do cotidiano de Israelitas e Palestinos, Granovsky finalmente entra, brevemente, em contato com o front de batalha na Faixa de Gaza. Compreendendo que o que ocorria naquele cenário não era notícia, mas, na verdade, a rotina, Iván parte para o Mar Morto para encerrar seu filme com uma horrenda comparação expositiva onde exalta boiando nas águas “Este é o Mar Morto. Não é Israel, nem Palestina. E isto que vêem não é um diretor, nem um jornalista. Mas um ator”.

E nesta brincadeirinha de desconstrução de mise-en-scene barata, Iván afirma que não é Iván para deixar bem claro que seu projeto é o artefato cinematográfico mais revolucionário do ano, já que usou do Fundo Setorial do Audiovisual para realizar sua volta ao mundo em oitenta dias como dispositivo de concretização de sua anti-ode ao discurso político castrado das elites domésticas midiáticas. E claro, que tratar de maneira breve e superficial todo aquele material documental de entrevistas com tais potentes figuras políticas e todo o contato com os refugiados e vítimas de guerra, valeu a pena para Granovsky, já que seu indispensável e genial argumento foi apontado ao resto do mundo.

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