Uma Odisseia na Capital do Brasil

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


Todo e qualquer ser humano enquanto indivíduo social já nasce com a simbologia de um muro atrelado à vida. Este elemento metafórico conduz e ensina que cada um possui o incondicional direito a seu mais genuíno individualismo. É uma divisão de lados e ideias. Uma proteção da própria privacidade. Um escudo. Uma forma libertária de respeitar a pluralidade das idiossincrasias presentes em todo e qualquer cidadão. Mas também é um arquétipo separatista, uma exclusão, que limita possibilidades agregadoras, fazendo com que aconteça uma padronização dos pensamentos.

Em “O Muro”, dirigido por Lula Buarque de Holanda, unido à roteirista Isabel de Luca, e exibido no Festival do Rio 2017, é buscado um imparcial e antropológico estudo social sobre nossa política atual, em especial a um momento delicado que é o Impeachment (“procedimental”) de Dilma Rousseff. O documentário quer destacar a voz de pessoas (que representam estátuas vivas) com suas mais diversas opiniões, estas narradas em off (não necessariamente a mesma da imagem mostrada), intercalando o muro em Brasília (que dividiu até mesmo o Congresso da Câmera) com o paralelismo de outros famosos muros do mundo (como o de Berlim, o da fronteira com o México, o das Lamentações e o da Palestina).

A obra é propositalmente conceitual. Constrói-se um tempo pausado-contemplativo com uma atmosfera de ficção científica à moda de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, criando uma sensorial e misteriosa inferência antagonista com o monólito (o muro vertical do conhecimento). Sim, muros limitam o novo e a expansão permissiva do próprio acreditar. Nós mesmos, vez ou outra, criamos muros ao andar em linha horizontal com nossos próximos.

Nós, todo e qualquer ser humano, somos desde sempre bombardeados e influenciados com direções pré-definidas. Seja pela mídia e ou pelo meio em que vivemos, nossa liberdade do pensar é mitigada em prol do bem-estar social, impedindo que um compartilhado discurso possa fortalecer o discurso não maniqueísta e não destrutivo. Cada vez aprendemos mais a ouvir o contraditório e a deixar de lado nossos mimados orgulhos de ter que estar sempre certo e a retirar nossos “reis da barriga”.

Outro ponto que precisamos abordar é que ainda engatinhamos na política. Somos novatos vulneráveis brincando de já possuir maturidade suficiente de opinar e alterar o andamento das ações. Não, não somos. E mesmo destruindo sonhos, nós precisamos analisar a realidade a nosso redor com o aspecto do realismo pragmático. Se pedirmos ajuda ao Dicionário Aurélio por uma definição mais efetiva, teremos uma surpresa. Muro também significa “caçar ratos”, além “defesa, proteção, auxílio e um obstáculo intransponível”. Contra o “golpe” ou a favor da “faxina”.

Cada um, no filme, pontua com pontos radicais, urgentes e ingênuos suas conclusões, ofensas, “ataques”, agressões, indignações, frustrações passionalidades e elucubrações sobre a polarização da política, contra ou a favor da permanência da então presidenta em exercício (e que foi escolhida por cinqüenta e quatro por cento dos votos), pontua seus pré-conceitos sobre “políticos (cargo de honra) ladrões no poder”. “Como você pode dividir um país dividido desse jeito? Não tem como”, diz uma eleitora.

“São estes momentos muitos especiais que a sociedade brasileira volta a se encontrar com a política de uma maneira passional só que com um lado negativo, que vai negar o Estado e é impulsionado pelo ódio e não pelo reconhecimento. Mas nos estamos em um momento muito mais interessante porque nós estamos reinventando a sociedade e o Estado deixa de ser o protagonista e passa a ser personagem da cena”, outro diz com didática.

Sim, o “gigante acordou” com a inversão de papéis. As cores da bandeira brasileira não representam mais o Brasil. A “cor mais quente” agora é o vermelho, que indica a mudança e não mais oposição. Tempos modernos. Típico de quem ainda bate na tecla da tentativa e do erro para acertar contra os “jogos, bolhas e articulações políticas”.

“O Muro” (“o protocolo formal para permitir o processo” ou “uma bobagem partidária” – “já existe”, mas também “une” os que compactuam das mesmas crenças) é o desejo “fanático” de um “país novo” de um povo que veste a camisa e pinta o rosto em protestos e manifestações, em que se vê um cartaz de Sérgio Moro como Adolf Hitler. É “uma demarcação de quem é o inimigo”. O que é define ser esquerda ou direita? Como mensurar? Como definir?

É um documentário que tenta o diálogo, estudar esse frágil aperfeiçoamento da política, em que não se sabe mais quem é o inimigo, e aceitar as diferenças de um “Brasil mestiço” tão diferente em suas possibilidades. “Deram o peixe, mas não ensinaram a pescar”, diz-se sobre a “tempestade perfeita” do “espetáculo do crescimento”. Com um povo que faz churrasco, carnaval, cerveja, funk, samba, que grita palavras-bordões de ordem e assiste o “julgamento” como quem assiste a final de uma Copa do Mundo.

É um filme sobre a “antítese” imagética observada do discurso à moda narrativa de um “Brasil S.A”, de Marcelo Pedroso, com “Era Uma Vez Brasília”, de Adirley Queiroz. “O Muro” aborda também a figura do “Isenção” (os de Centro, os “neutros”, os “apartidários”, o do “caminho do meio”), vistos como “frutos desta polarização, que se sentem deslocados e não representados”.

“Político não pode torcer, tem que fazer. E parabenizar aquele que merece”, finaliza com a certeza de ser um documento amplo sobre a pluralidade do pensar. Um filme que estreia em um momento propício, em tempos de eleição, e que abraça de forma complementar a temática de “O Processo”, de Maria Augusta Ramos. É a esquerda versus a direita. O vermelho versus o verde e amarelo. Coxinhas versus pão com mortadela. Quem sofrerá sete a um? Quem perde e quem ganha nesta nova democracia?

E o documentário não se estabiliza apenas em campos brasileiros e viaja aos Estados Unidos para assim também tentar entender o “fla x flu” deles dos contras e adoradores de Donald Trump. “O Muro” é sobre nossos muros. Metafóricos e físicos. De nossos achismos subjetivos que convivem socialmente com outros achismos tão diferentes. Concluindo, o filme é um documento necessário. Obrigatório. Uma masterpiece. E você, é contra ou a favor das fronteiras?

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