Deixe o filme entrar

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


“As Boas Maneiras”, mais uma vez, traz a parceria-casamento da dupla Juliana Rojas e Marco Dutra (de “Trabalhar Cansa”), conhecidos pelo fascínio ao cinema de gênero de terror-horror psicológico, que agora é definido de “pós-horror”. O mais recente filme é uma fábula paranormal-modernista de realismo fantástico aos moldes de um Guilhermo Del Toro com Manoel de Oliveira e com Sergio Bianchi.

É um “O Labirinto do Fauno” com “O Estranho Caso de Angélica” com “Os Inquilinos – Os Incomodados Que Se Mudem”, sem, contudo, esquecer da atmosfera de “Deixe-Me Entrar”, de Matt Reeves. Sim, é uma obra que imprime todas suas cinéfilas homenagens e referências, porém conservando a personalidade de seus diretores.

O longa-metragem, exibido no Festival de Locarno 2017 e competindo na categoria oficial à melhor filme no Festival do Rio do mesmo ano, busca propositalmente caminhar no limite tênue do anti-naturalismo (por causa de sua sensação de estranheza e de uma romanceada, ingênua e pululante artificialidade) e do ultra e visceral realismo (percebido no cuidado em construir a credibilidade visual da criatura lobisomem).

Aqui, a narrativa é conduzida pela estrutura de um conto de fadas metafórico que une criação e gestação, que personifica medos, carnes, desejos frustrações, proteções, solidões, carências, opções, covardias, fracassos, oportunidades “marroquinas”, vampirismos, possessões filosóficas e opções sexuais.

Suas atrizes desconstroem suas próprias interpretações, personalidades e literaturas. É um interessante, possível e curioso simbolismo da boa loucura. De alimentar a estranheza por um livre e amador viés surreal.

Ana (a atriz Marjorie Estiano) contrata Clara (o atriz Isabél Zuaa), uma solitária enfermeira moradora da periferia de São Paulo, para ser babá de seu filho ainda não nascido. Conforme a gravidez vai avançando, Ana começa a apresentar comportamentos cada vez mais estranhos e sinistros hábitos noturnos que afetam diretamente Clara. Uma noite de lua cheia muda para sempre a vida das duas mulheres.

“As Boas Maneiras” cria o classicismo da mise-en-scène pelo plano e contra-plano e pela magia da fotografia enevoada (que faz com que com que o espectador liberte a mente e chegue até a inferência da novela “Tieta” – por causa da Mulher de Branco – e o lobisomem que aparece em “Roque Santeiro”).

O filme também cria, nas entrelinhas da trama, seus aprofundamentos de crítica social, como a negra que só pode subir pelo elevador de serviço e que em uma entrevista de emprego para babá causa inicialmente uma classista distância (uma hesitação permitida de até qual ponto se pode ir).

É uma volta ao passado. Uma nostálgica viagem ao tempo perdido em que os valores politicamente incorretos ainda eram aceitáveis e cúmplices. Um retorno a uma escravidão em uma atemporal e paradoxal contemporaneidade. Ana quer uma “amiga” que possa dar ordens. Clara aceita a troca “oportunidade” sem questionar. Casa Grande e Senzala que inverte os papéis e a “colocação das asinhas de fora”. É uma revolta que personifica os medos mais primitivos e internos do ser humano.

É uma terapia pela catarse fantasiosa. É uma metáfora transmutada da aceitação. De acreditar nas próprias unicidades e na estranheza existencial das próprias idiossincrasias expostas ao mundo. De um lado, uma mãe solteira que precisa recompor sua vida (de suas contradições bipolares, de seu querer auto-destrutivo, de seus “créditos não autorizados” e de seus fúteis momentos de malhar ao som de músicas sertanejas).

Tudo aqui está na simplicidade direta dos detalhes. Com suas indicações propositais à artificialidade, como a lareira. Como o esquecimento de tirar o crachá. Ou cortar carne por legumes. Ou a performance majestosa da atriz Gilda Nomacce. É uma realista epifania importada do sonho de nosso presente assistido. O controle remoto, a solidão da confiança, o curso de etiqueta, a caixinha de música com um cavalo branco que dança e roda, o mistério que ronda com seus barulhos da noite, a iminência do mal que pode acontecer a qualquer momento. Há algo sensorial do universo de “Twin Peaks”, de David Lynch.

Entre carências, dependências, submissões, sensibilidades, o flerte lésbico, desejos, poderes, assédios, livros e letras de contos de fadas, sexo desconstruído, criaturas e possessões à moda de “Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas”, de Apichatpong Weerasethakul, estágios sonâmbulos, retroalimentações, verdades lúdicos, sombras, contrastes, diferenças, tudo faz com que uma se torne a outra com ou sem “Can´t Take My Eyes of You”. O tempo passa. A criança cresce com comida saudável. Esta é a outra fase que nos conduz a outra metáfora: a da proteção de uma mãe que luta diariamente para livrar seu “filho” dos sofrimentos de uma mundo hostil, cruel e individualista. “As Boas Maneiras” é uma ode à liberdade sensível e clássica de se contar histórias, única e exclusivamente com a ilusão da distância emocional que aproxima. O momento não é imposto, tampouco obrigado, e sim acontece pela naturalidade do tempo.


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