Balanço, Notas e Prêmio Vertentes do Cinema

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018 (antes da Premiação Oficial)


Todo e qualquer ano de todo e qualquer festival, sempre há uma comparação da edição que acontece no presente com as anteriores. É quase unânime ouvir: “Em 2016, foi melhor que essa”, como por exemplo. Não, não é. Cada uma apresenta suas maestrias e fracassos, logicamente observados pelo viés do subjetivismo, pulando a retórica da pergunta “Por que limitar o gostar se o próprio ser-humano é pluralista em sua genuína essência?”.

Contudo, toda e qualquer edição possui suas particularidades e militâncias que impulsionam de forma generalizada sua exposição mundial midiática. Este ano, o Festival de Cannes 2018, que completa setenta e um anos, traz de novo o universo Nouvelle Vague por escolher de novo a homenagem-filme do cartaz oficial (e a famosa cena do beijo), “O Demônio das Onze Horas – Pierrot Le Fou”, de Jean-Luc Godard, que já esteve com “O Desprezo” em uma próxima edição anterior.

Só que o foco principal, todos os mundiais holofotes foram para a luta feminina, tendo a atriz Cate Blanchett como presidente do júri da competitiva oficial a Palma de Ouro, que realizou uma marcha com oitenta e duas mulheres que discursaram no Tapete Vermelho por igualdade, melhor exposição e por serem tratadas por seus talentos como artistas e não segmentadas em secundários papéis. O ponto alto desta luta-homenagem foi a fala de Agnes Vardá. O festival distribuiu em seu kit imprensa o folder Women in Motion, movimento que desde 2015 dá voz ao feminino no cinema.

A cerimônia de abertura teve como apresentador o parisiense ator-diretor-produtor Édouard Bauer (que narrou “Ervas Daninhas”, de Alain Resnais; e interpretou Otis em “Asterix & Obelix: Missão Cleópatra”), que buscou mesclar entretenimento (à moda Oscar) com a característica principal dos franceses: a adjetivação filosófica, apaixonada, passional, nostálgica, saudosista e sentimental. Sem esquecer a música no piano à la Michel Legrand. “Cinema é uma experiência coletiva. Os filmes estão vivos”, discurso sobre atores e sobre o amor pela sétima arte, homenageando a atriz Anna Karina (que estampa seu jovem rosto no cartaz oficial) com muitas cenas de “Pierrot Le Fou”.

E então o diretor-delegado do festival, Thierry Frémaux, sobe ao palco apresentando o júri. E em um desses momentos de mostrar a plateia, quem vemos é a produtora brasileira Sara Silveira. Cate Blanchett, após ter também sua homenagem com cenas de seus filmes, entra ao som de “Just Like a Woman”, de Bob Dylan. A presidente disse que o papel de um júri é “abrir corações e mentes aos gêneros apresentados. É uma cerimônia diferente. Também há sarcasmo e a necessidade de entreter, mas o que se leva em conta na verdade é a elegância com sua câmera fluida que desfila naturalidade.

O momento moderninho da noite é mesmo quando o diretor Martin Scorsese, homenageado este ano no Carrossel de Ouro da Quinzena dos Realizadores, sobe ao palco ao som roqueiro de Rolling Stones. “Nós temos a mesma paixão por cinema”, diz.

Sim, todo e qualquer festival, Cannes não poderia ser diferente é uma experiência. Passional, física e libertadora. Começando que só de estar aqui é um privilégio. Apesar do cansaço, esgotamento mental, noites sem dormir, dias passados apenas com um simples e rápido café da manhã, a maratona francesa é o vício que mais amamos. Até mesmo os piores filmes (ideia esta que o site não compactua, visto que todo e qualquer filme deve existir) são catarses comparativas.

No Festival de Cannes, nós espectadores potencializamos nossa incondicional cinefilia nas constantes filas, nas conversas com os críticos de todos os lugares do mundo, nas discussões saudáveis e acaloradas sobre os preferidos e os “odiados”. Tudo se configura como uma inenarrável experiência. De Lars von Trier a Gaspar Noé, culminando na imperdível exibição de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick, que completa cinquenta anos, lançado em um conturbado 1968, e que nós fomos presenteados com a diferente remasterização de Christopher Nolan, este que buscou reconstituir na íntegra, inclusive em seu som e catálogo, a mesma primeira sessão exibida em Cannes.

E sim, de novo. Toda e qualquer edição de Cannes, nós espectadores somos estimulados a vivenciar nossos mais primitivos sentimentos. Vamos do amor ao ódio e o retorno à paixão. Tudo por causa das constantes filas, dos procedimentos de segurança (em toda e qualquer exibição), que faz com que tenhamos a certeza absoluta de que todos os dias nos encaminhamos ao aeroporto para realizar uma viagem internacional. Talvez seja isso. Cannes inicia a experiência já na fila, acreditando que todo e qualquer filme é uma viagem. É uma pioneira experiência em 5D. Outra peculiaridade é a necessidade obrigatória do Black-Tie, que nós brasileiros conhecemos como Smoking, nas sessões de gala (muito gala). É compreensível. Nós estamos na Europa, palco dos ataques terroristas mais violentos.

Mas vamos retomar o que mais interessa: os filmes. Este que vos fala (escreve na verdade) assistiu a cinquenta filmes e mais uma sessão com os curtas-metragens em competição, correndo da competição à mostra Un Certain Regard aos da Semana da Crítica a Quinzena dos Realizadores aos filmes fora de competição. Inevitavelmente, alguns muitos foram perdidos. Mas chega ser insano de tão bom.

Acho eu que é compreensível uma certa dificuldade em encontrar tempo para desferir análises críticas. Sim, acho que é. Por isso, este ano, resolvi adentrar no universo dos vídeos-twitter, com rápidos achismos sobre as obras assistidas. O espectador vertenteiro pode conferir tudo nas nossas redes sociais: Facebook e Instagram.

E antes de listar as notas de cada filme, reitero que tudo é uma questão subjetiva baseada em vivências, influências, referências e entendimentos, pseudos ou não.


Prêmio Vertentes do Cinema

PALMA DE OURO: “Shopliters | Manbiki Kazoku”, de Hirokazu Kore-Eda.

GRANDE PRÊMIO DO JÚRI: “Capharnaüm”, de Nadine Labaki.

PRÊMIO DE DIREÇÃO: Nuri Bilge Ceylan, por “The Wild Pear Tree”

PRÊMIO DE ROTEIRO: “Blackkklansman”, de Spike Lee.

MELHOR ATRIZ: Samal Yeslyamova, por “Ayka”, de Serguey Dvortsevoy.

MELHOR ATOR (empate): Vincent Lindon, por “En Guerre”, de Stéphane Brizé; Zain Alrafeea, por “Capharnaüm”, de Nadine Labaki; e Marcello Fonte, por “Dogman”, de Matteo Garrone.

PRÊMIO ESPECIAL DO JÚRI: “Cold War”, de Pawel Pawlikowski, por Melhor Fotografia.

PRÊMIO UN CERTAIN REGARD: “Donbass”, de Sergei Loznitsa.

PRÊMIO ESPECIAL UN CERTAIN REGARD: “In My Room”, de Ulrich Köhler.

MELHOR FILME DO FESTIVAL DE CANNES 2018 (empate): “Diamantino”, de Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt; e “Wildlife”, de Paul Dano.

PRÊMIO DESCOBERTA NO ESCURO (empate): “Girl”, de Lukas Dhont; e “Sauvage”, de Camille Vidal-Naquet.


As Cotações dos Filmes

5 Câmeras

***** “WildLife”, de Paul Dano (Semana da Crítica)
***** “Donbass”, de Sergei Loznitsa (Un Certain Regard)
***** “Sauvage”, de Camille Vidal-Naquet (Semana da Crítica)
***** “Gräns”, de Ali Abbasi (Un Certain Regard)
***** “3 Faces”, de Jafar Panahi (Competição)
***** “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick (Sessão Homenagem 70mm)
***** “Shoplifters”, de Kore-Eda Hirokazu (Competição)
***** “Dogman”, de Matteo Garrone (Competição)
***** “Capharnaüm”, de Nadine Labaki (Competição)
***** “The Wild Pear Tree”, de Nuri Bilge Ceylan (Competição)

4 Câmeras

**** “Leto”, de Kirill Serebrennikov (Competição)
**** “Yomeddine”, de A. B. Shawky (Competição)
**** “Plaire, Aimer et Courir Vite”, de Christopher Honoré (Competição)
**** “El Ángel”, de Luís Ortega (Un Certain Regard)
**** “Girl”, de Lukas Dhont (Un Certain Regard)
**** “Climax”, de Gaspar Noé (Quinzena dos Realizadores)
**** “Le Grand Bain”, de Gilles Lellouche (Fora de Competição)
**** “Blackkklansman”, de Spike Lee (Competição)
**** “The House That Jack Built”, de Lars von Trier (Fora de Competição)
**** ““En Guerre”, de Stéphane Brizé (Competição)
**** “In My Room”, de Ulrich Köhler (Un Certain Regard)
**** “Ayka”, de Serguey Dvortsevoy (Competição)

3 Câmeras

*** “Arctic”, de Joe Penna (Fora de Competição)
*** “Mon Tissu Préféré”, de Gaya Jiji (Un Certain Regard)
*** “Los Silencios”, de Beatriz Seigner (Quinzena dos Realizadores)
*** “Ash is Purest White”, de Jia Zhang-Ke (Competição)
*** “Le Livre D’Image”, de Jean-Luc Godard (Competição)
*** “Gueule D’Ange”, de Vanessa Filho (Un Certain Regard)
*** “Long Day’s Journey Into Night”, de Bi Gan (Un Certain Regard)
*** “Sofia”, de Meryem Benm’Barek (Un Certain Regard)
*** “Mirai”, de Mamoru Hosoda (Quinzena dos Realizadores)
*** “Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos”, de João Salaviza e Renée Nader Messora (Un Certain Regard)
*** “Burning”, de Lee Chang-Dong (Competição)
*** “Whitney”, de Kevin MacDonald (Fora de Competição)

2 Câmeras

** “Todos Los Saben”, de Asghar Farhadi (Competição)
** “Rafiki”, de Wanuri Kahiu (Un Certain Regard)
** “O Grande Circo Místico”, de Carlos Diegues (Fora de Competição)
** “Les Filles Du Soleil”, de Eva Husson (Competição)
** “Manto”, de Nandita Das (Un Certain Regard)
** “Lazzaro Felice”, de Alice Rohrwacher (Competição)
** “Mandy”, de Panos Cosmatos (Quinzena dos Realizadores)
** “Asako I & II”, de Ryusuke Hamaguchi (Competição)
** “Solo”, de Ron Howard (Fora de Competição)
** “Un Couteau Dans Le Cœur”, de Yann Gongalez (Competição)

1 Câmera

“À Genoux Les Gars”, de Antoine Desrosières (Un Certain Regard)
“Fahrenheit 451”, de Ramin Bahrani (Fora de Competição)
“Euforia”, de Valeria Golino (Un Certain Regard)
“Under The Silver Lake”, de David Robert Mitchell (Competição)

E aguardando assistir ao filme de Encerramento do Festival de Cannes 2018: “The Man Who Killed Don Quixote”, de Terry Gilliam.

  • Belíssimo trabalho. Parabéns pela qualidade dos textos e das análises – e também pela perspetiva positiva sobre o cinema (“todos os filmes devem existir”).

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