A inocência no escárnio

por Gabriel Silveira


Civeyrac provou-se um romântico em Toutes ces belles promesses com sua apreciação para com o tempo de sua mise-en-scene. A maleabilidade com que a distorcia no embate dramático entre a memória e o fardo do luto regido pela melancolia do ritmo de todo o arsenal barroco da trilha musical que era emanada dos conflitos internos de sua protagonista musicista; a câmera que era sensual, permitia-se sentir cada um de seus eixos, caindo em certas sequências que, apesar de teleológicas para o drama, soavam quase como as mais singelas e cândidas representações. O diretor chegava a, de certa maneira, concretizar seu anseio pelo culto da fotogenia em sequências onde primava por um virtuosismo no fluxo de certos planos que harmonizava primorosamente com o âmago dos dramas em questão, permitindo-se até mesmo confirmar tal apreço pelo gozo cinéfilo encerrando a obra com aquele plano final dos raios solares que cortam-se entre sombras pelas folhas de uma árvore que desnuda-se no cair de tais folhas no início de um outono, uma ode àquele primeiro vislumbre de cinefilia notado por Méliès em um terceiro plano num dos filmes dos Lumiére. Em Paris 8, Civeyrac decide tentar direcionar todo o escopo da obra para um olhar idiossincrático de tal experiência cinéfila numa juventude européia e acaba trazendo o pessoal para uma esfera de uma cinefilia global que é, em seu âmago, eurocêntrica.

Num primeiro momento, o espectador, que chega na sala de projeção esperando a mesma disposição de um Civeyrac articulado de 2003, acaba esbarrando com uma frustração ao assistir nos 10 minutos iniciais uma câmera manca que mais parece ter tropeçado numa vala de um plano/contraplano quase pastiche da decupagem estática e da fotografia em preto e branco de alto contraste de Garrel. Curioso, também, notar como este último emana sua devoção ao culto da fotogenia, á moda de sua geração, em sua obra mais recente através de uma subjetividade que é alicerce da mesma, diferente de Civeyrac que no filme decide concretizar seu desejo de filmar outra ode num drama de um jovem francês que parte para Paris a fim de cursar um curso de graduação em cinema na Paris 8 e bota sua cinefilia e seu anseio por uma vida primeiramente cinematográfica à prova. A esterilidade dos primeiros momentos da lugar a comédia que acaba se tornando o momento de descoberta do primeiro contato de Étienne (protagonizado por Andranic Manet) com a comunidade de cinefilia universitária parisiense que o jovem conseguia apenas sonhar em seu mundo interiorano de Lyon. Digo que torna-se comédia, porque, minha identificação para com os dramas existenciais de Étienne eram dignos de gargalhadas.

Primeiro vêm a enxurrada de dramatizações de debates referenciais de um deleite de uma elite doméstica que chega a soar decadente por continuar jogando lenha na fogueira de questões condenadas à estagnação eterna por três gerações de cinefilia: “Ahh, o travelling imoral de Kapo!”. Há o embate entre Mathias (Corentin Fila na pele do purista prepotente que acaba tornando-se quase que um ídolo para Étienne como uma personificação do artista idealizado) versus o fetichista de gêneros do “cinemão”, onde o primeiro expurga todo o seu desprezo por todos aqueles que aproveitam de seu medium divino para gerar produtos enlatados que blasfemam sua religião por não conhecerem e usurparem de metade de suas referências e dogmas de sua ditadura estética. Um modelo ideal para Étienne, que quando questionado por uma garota, em sua primeira festa em Paris, “Qu’est que c’est le cinema?” o mesmo responde numa exaltação arrogante “Le cinema ne c’est pas des images!”. Se este fosse brasileiro, teria levantado da cadeira para performar sua melhor imitação de Glauber em Vento do Leste de Godard exaltando “É o terceiro mundo, um cinema perigoso, divino e maravilhoso!”.

Seguimos acompanhando a jornada de descobrimento e desilusões de Étienne pelos anos de graduação, onde o amor deixa de fazer sentido quando a paixão por sua primeira namorada do interior esvanece quando uma ativista revolucionária passa a dividir o apartamento parisiense do rapaz e vira a crença deste no cinema pelo avesso, para logo em seguida, Mathias o convencer a voltar a luta com Cartas Luteranas de Pasolini. Chego a mentalizar toda a saturação deste discurso cinéfilo como a vulgaridade que tanto me agradou com risadas de escárnio ao lembrar de certos pontos estruturais, mas, percebo por fim, que é justamente essa vulgaridade que é vital quando se tem vinte anos de idade e não se sabe muito bem por onde está andando nessa vida. Quando se encontra um fragmento de luz e se agarra nele como se fosse tudo o que tivesse e desse a energia para crer que há um caminho e, então, confia neste como se não houvesse outro. E mesmo no meio de toda essa vulgaridade juvenil, nasce uma brecha num último plano para que aquela luz que entra pela janela — que Méliès apontou no início — brilhe forte.

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