O nível acima de um abrasileirado House of Cards

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2018


Não há nada de errado em usar o cinema para militar a própria luta e a outra forma de enxergar um mesmo ponto. Até porque tudo é sempre uma questão de perspectiva. É o caso da diretora documentarista Maria Augusta Ramos, que apresenta seu olhar sobre o impeachment da presidenta eleita Dilma Rousseff.

O filme aborda o processo deste afastamento. Com suas articulações, votações e julgamentos pelos bastidores de inúmeras câmeras próximas, nos ambientando em uma intimidade permissiva. Nós vivenciamos a luta, as defesas, discursos e situações em prol da libertação e da permanência no cargo da presidenta. Apesar de sua inclinação quase unânime à esquerda, “O Processo” também quer pontuar a oposição, comportando-se assim como “advogado do diabo”, parecido com o que Lucia Murat fez em “A Memória Que Me Contam”.

O documentário acompanha a crise política que afeta o Brasil desde 2013 sem nenhum tipo de abordagem direta, como entrevistas ou intervenções nos acontecimentos. A diretora Maria Augusta Ramos passou meses no Planalto e no Congresso Nacional captando imagens sobre votações e discussões que culminaram com a destituição da presidenta Dilma Rousseff do cargo.

Claro que com a diferença de que aqui não é ficção, ainda que nossa política esteja mais para um avançado e estendido episódio (à moda de um Lav Diaz por sua duração) de “House of Cards”. O espectador é imerso em uma edição ágil que prende não só pelo tema, mas também por seu naturalista entretenimento do universo acelerado dos políticos. Sim, é tudo sobre política, e também é cinema de qualidade. Sua câmera mosca, no melhor estilo de Frederick Wiseman (sua diretora não concorda com essa adjetivação), cria a sinestesia, nos mergulhando na espontaneidade emocional.

“O Processo”, exibido no Festival de Berlim 2018, e aplaudido efusivamente, é um filme passional. De urgência. De propaganda. De luta. De uma diretora amiga a uma amiga. De compartilhar crenças e ideais aos que se sentem desprotegidos e vulneráveis. É documento à moda Jean-Luc Godard. Não podemos negar também que é um filme de lados em um Brasil “gigante” acordado e ainda infantilizado na política. Somos iniciantes em participar com nossas opiniões. Sim, o meio termo não existe.

Nós estamos em uma competitiva partida de futebol de direções. Esquerda versus direita com todas as suas brigas, desacordos e caricaturas pré-definidas. De um lado, os “reacionários”. Do outro, “revolucionários”. Jair Bolsonaro versus Lindbergh Farias. Olavo de Carvalho versus Gregório Duvivier.

Mas voltando a cinematografia, “O Processo” é uma experiência visual que nos encanta, agita e desnorteia com a técnica precisa e irretocável da montagem de Karen Akerman. É a alma da condução. Somos bombardeados e confrontados com nossos mais primitivos achismos. Com uma direção pulsante, forte, determinada e intensamente enérgica, o documentário prova ser um inteligente e unilateral estudo sobre um importante e marcante acontecimento na história da política brasileira entre brigas de deputados, faixas “não admitidas em qualquer lugar”, “vermelhos” contra “verde e amarelo”, critica de uma “homenagem” a um coronel torturador, “farsa sexista”, aplausos e vaias na sessão, a mídia, os bastidores da política, seis meses para fazer o julgamento (“Cadê a casualidade?”), elucubrações, “gado indo para o matadouro”, muitas imagens de arquivo, divergências, o dom do falar e persuadir, um cachorro andando perdido dentro da “casa do povo”, pintura à moda de Che Guevara, tudo é para a defesa da “Dilma guerreira”.

É estar na defensiva o tempo todo, no modo auto-proteção. O que assistimos é um circo, um espetáculo teatral papagaiado. É um barraqueiro freak show. Escolher a vontade de Deus em um Estado Laico. Surreal, dialético, desumano e ofensivo. “Conversa não é ato político. Se não um ato, omissão”. “O que mais dói é a injustiça. Por que este ódio todo?”, queixa-se. É o mundo das ideias tomando conta do real no discurso inteligente e firme de Dilma em um lugar misógino, dominado pela vontade dos homens.

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