Os passos da idade

Por Vitor Velloso


De um certo tempo para cá, o sub gênero, dramédia com idosos, veio ganhando cada vez mais filmes, isso se deve, também, ao fato de atores consagrados que vão envelhecendo, abrirem espaço para concepção de piadas sobre a própria condição de tempo a que estão submetidos. A grande maioria desses filmes são de cunho duvidoso e repletos de clichês que foram se consagrando ao longo do gênero (drama familiar influencia muito). Vez ou outra aparece um filme que busca re-imaginar o espaço deste tipo de obra no cinema contemporâneo através de outra perspectiva ou filmes que abraçam todos estes clichês, que limitam a narrativa, como proposta formal. É o caso de “The Party”, da Sally Potter e “Acertando o Passo”, de Richard Loncraine, respectivamente.

Acertando o Passo conta a história da “Lady” Sandra Abbott (Imelda Staunton) que após muitos anos de casamento descobre que seu marido Mike (John Sessions) a traia com uma amiga da família. Sandra se muda para a casa de sua irmã, Bif (Celia Imrie), que não possui a riqueza toda que ela possuía e enfrenta as dificuldades de uma readaptação social e familiar. A sinopse faz soar o filme mais clichê do ano, e é. Mas esse engessamento narrativo torna-se o dispositivo para os gatilhos emocionais que o filme tenta trazer.

Não existem surpresas e tudo que acontece no filme está programado, assim, o filme depende do carisma dos atores e de tempos de reação para poder gerar sua comédia a partir de pequenas cenas. E o elenco tem carisma de sobra, principalmente Celia Imrie e Timothy Spall, que também se encontra em The Party. Os atores conseguem cativar o público através de suas forças e motivações, não através de suas fragilidades. Seus dramas são críveis e compreensivos. E a energia que os dois possuem em cena vem de uma breve carga melancólica que o filme herda, por tratar de pessoas que se encontram cada vez mais sensíveis ao tempo.

Trata-se de um filme britânico, logo, fala-se de um humor próprio e constante. Que evita vulgaridades gráficas mas que brinca com possíveis suposições. O filme não me provocou nenhuma risada, mas confesso em alguns momentos ficar com um breve sorriso no rosto, pois a atmosfera do filme é muito positiva. Existe um otimismo tão presente nos planos e na misé-en-scene, que quando qualquer tom negativo ganha forma, há estranhamento. A gravidade da vida é um tema de segundo plano, pois o que importa para filme, como objeto, não é a recuperação moral de Sandra, mas sim as relações que são criadas e/ou fortalecidas com o passar da projeção.

E o roteiro se utiliza da dança como escopo de partida para essas criações. Os personagens fazem parte de um grupo de dança de terceira idade. E Sandra, no passado, adorava dançar, deixou de fazê-lo em razão de um casamento que se prioriza uma visão aristocrática e patriarcal de “deveres e valores”. A partir deste intenso resgate de memórias e sensações, Sandra torna parcialmente e lentamente ao mundo da dança, onde se reencontra. É claro que grande parte do material é muito piegas e cafona. Mas uma certa investida emocional, em algumas relações, conseguiu me conquistar aos poucos.

Ao menos não são competições musicais como “Ela dança eu danço”, são situações menos institucionalizadas e com uma carga de responsabilidade muito reduzida. Pois, o grande trunfo daquelas pessoas é poder estar dançando com a idade que possuem e com todas suas limitações físicas. Em momentos de apresentação, a montagem do filme ganha um ritmo mais dinâmico e com enquadramentos levemente mais ousados, de ângulos diversos, buscando uma dinamização maior da dança, sempre apelando para coreografias não contemporâneas para refrescar a nostalgia que percorre seus corpos.

A fotografia do filme recebe um tratamento mais padronizado, seus desenhos de luz são os mesmos do mercado e não possui a intenção de impor algum discurso autoral. Mas é necessário destacar alguns enquadramentos e composições em quadro que se destacam pela simplicidade do filme. Trata-se de um filme comercial, é claro, mas que não busca atingir o status de “Blockbuster”, se ele for assistido por pessoas da terceira idade e que saiam com um sorriso no rosto, seu papel foi cumprido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados