Sobre os encontros errados para chegar ao certo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Todo e qualquer ser humano, ainda mais se for cinéfilo, possui diretores referências. No nosso caso, um deles é o francês Christophe Honoré (de “Canções de Amor”), cuja característica principal é unir a narrativa clássica Nouvelle Vague com uma modernidade cotidiana do agora, mesmo que suas épocas sejam passadas.

O mais recente filme “Plaire, aimer et courir vite”, que em uma tradução literal “Prazer, amar e correr rápido” é uma homenagem à vida, uma ode ao amor em respeitar suas idiossincrasias, quereres, humores, limitações, hesitações, medos, impulsos em um universo naturalista e espontâneo do início dos anos noventa.

A maestria é definitivamente seu roteiro com suas informações literária-cinematográfica-filósofas que se metaforizam na construção atual dos personagens, definindo próximas ações e passionalidades.

Jacques (o ator Pierre Deladonchamps) é um escritor que vive em Paris. Ele não completou 40 anos, mas desconfia que o melhor da vida ainda está por vir. Arthur (o ator Vincent Lacoste) é um estudante (como Rimbaud), “ultra-sentimental” de vinte anos que mora na Rennes. Ele lê e sorri muito e se recusa a pensar que tudo na vida pode não ser possível. Jacques e Arthur vão gostar um do outro. E conversar muito de Ginsberg a Whittman em verborrágicas adjetivações. E ir ao “Act Up” (que é “mais excitante que conhecer as catacumbas”). Assim como em um lindo sonho. Assim como em uma história triste.

“Plaire, aimer et courir vite” humaniza as relações humanas e suas consequências, entendendo as escolhas realizadas (como se fosse quase obrigatório vivencia-las), que por sua vez levaram a sofrimentos. Honoré cria seu ingênuo e puro mundo de crença no amor real, que atravessa o tempo, que inicialmente acontece pelo instinto sexual animalesco (e pelo estimulado encanto da beleza e da juventude – um que de “Morte em Veneza”, de Thomas Mann) para depois ganhar a maturidade do carinho perpetuado. O que se conquistou, não se perde mais.

O amor (sem problemas em ser confessado) é muito mais que suas formalidades. O não banho não faz com que o namorado fique menos importante. É um mero detalhe. É orgânico. O cheiro representa também a entrega à paixão. É sobre ser “velho hoje”, antiquado, precisando constantemente a adaptação do novo. É analisar relações passadas e qual dos dois foi mais “complicador”. “O amor era inflexível”, diz com naturalidade não sensível sobre o viver e o morrer. Com infantilidade ou não. Com escolha de manter o orgulho e finalizar com dignidade. Da aparência.

Não há liquidez, tampouco casualidades. Há a verdade intensiva do desejo, dita com o típico humor francês de sarcasmo implicante quase agressivo e há a necessidade de não guardar nada: rancores, dúvidas, segredos e motivos. Eles explodem o lado de fora, expondo sem ressalvas, hipocrisias e medo do ridículo, nunca, mas nunca mesmo guardando o que poderia ser. Assistir a im filme de Honoré é compreender a essência de seu povo natal.

Entre cartazes dos filmes “Querelle”, de Rainer Werner Fassbinder, “Boys Meet Girl”, de Leos Carax, e “Orlando” com Isabelle Huppert, e visita ao túmulo de François Truffaut em Paris, “Plaire, aimer et courir vite” é uma grande metalinguagem, que faz questão em não esquecer os “fantasmas”. Outra característica mágica de conto de fadas realista é a “permissão”de cada um ser o que quiser. Homens ou mulheres. O desejo não encontra gênero. Quem se limita acaba morrendo sem viver o todo.

Pode ser considerado como um filme coral, por separar os núcleos de seus personagens que se encontram pelo mesmo querer. É a “oportunidade da aventura” que se desenvolve por elipses que vão e vem, livres no tempo e espaço. É também uma fábula. De duas pessoas que passaram a vida amando errado para terminar com a certeza da eternidade. Mas nada é eterno, tampouco fantasioso. A realidade nos assalta repetidamente, como um cruel jogo de cartas do universo que desestrutura os encontros “maktub”.

“Plaire, aimer et courir vite” é muito mais que apenas uma observação do universo gay. Muito mais. E sim, é um estudo de caso antropológico sobre as diversificadas formas de se encontrar. Os lugares inóspitos e desertos à “pegação”. Quando um é agraciado com o prazer, todos ao redor invejam e potencializam suas solidões, que faz a entrega ao impulso.


Festival de Cannes 2018: “Plaire, aimer et courir vite | Sorry Angel”


Do diretor francês Christophe Honoré (de “Metamorfoses“, “Homem no Banho“, “As Bem Amadas“, “Minha Filha, Você Não Irá Dançar“). Ficção. Com Vincent Lacoste, Pierre Deladonchamps, Denis Podalydès. 132 minutos.


Jacques é um escritor que vive em Paris. Ele não completou 40 anos, mas desconfia que o melhor da vida ainda está por vir. Arthur é um estudante que mora na Bretanha. Ele lê e sorri muito e se recusa a pensar que tudo na vida pode não ser possível. Jacques e Arthur vão gostar um do outro. Assim como em um lindo sonho. Assim como em uma história triste.


“Plaire, aimer et courir vite | Sorry Angel” integra a mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2018.


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