Vidas expostas em uma jornada de renovação

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


O diretor egípcio A. B. Shawky, estreante em um longa-metragem, que em 2008 realizou o curta documentário “The Colony” – iniciando o tema que usaria por completo agora, e que recebeu um presente do Festival de Cannes 2018 ao ser escolhido para concorrer a Palma de Ouro, poderia ter transformado seu “Yomeddine” em um grande melodrama. Mas não. Pelo contrário. Conduziu com controle absoluto o tempo, espaço, emoção e sutilezas de sua narrativa. “É a chance de dar ao homem a chance de definir sua humanidade e não sua doença”, disse o diretor.

O espectador possui dois caminhos em sua mão. Uma é a de enveredar pela temática oportunista, à moda de “Touch Me Not”, de Adina Pintilie, que ganhou o Urso de Ouro no Festival de Berlim deste ano. Tudo porque utiliza o ator Rady Gamal, que sofreu uma doença rara, de inexplicável condição, ainda criança. A clínica recomendou que a família o mandasse a Colônia de Lepra Abu Zaabal. Aqui, ele interpreta a si mesmo com o nome ficcional de Beshay. O outro é entender seu conceito e propósito.

Sim, a primeira opção é mitigada completamente já nos primeiros minutos. É um filme que não busca a manipulação. Que não quer o sentimento de pena do público. O protagonista é construído com humor espirituoso, que aceita e sabe muito bem em qual estágio está e também que não deixará de sofrer olhares tortos, preconceituosos e incômodos de “pessoas doentes”, integrantes de uma sociedade individualista, oportunista, hipócrita, fria, cruel e hostil. Beshay é a “besta”, um ser “freak”, um “outsider”, um “ninguém”

“Yomeddine” significa “Dia do Julgamento” em árabe, em que cada um será julgado igualmente por seus atos e não por suas aparências. O filme é uma homenagem a este ator, o aventurando para desbravar o mundo (vendo pelos próprios olhos) que o lar em que vive é o paraíso comparado ao inferno dos lugares “normais e saudáveis”.

Beshay (Rady Gamal) é um coletor de lixo que decide sair do confinamento de uma colônia de leprosos pela primeira vez e embarca em uma jornada ao Egito para procurar sua família. Ele viaja com seu burro e seu aprendiz órfão, Obama (“o nome por causa do cara da televisão”) ao longo do Nilo e, pela primeira vez, fica cara a cara com as pequenezas, mesquinharias e maldades dos seres-humanos.

Mas “Deus sempre ajuda”, assim novos amigos, também à margem de uma sociedade colapsada (e perdida), conduzem estes dois retirantes “on the road” a retornar à estrada certa, lugar este que é integrado como parte de uma grande família e que trocam verdades sem dramas e sensibilidades.

“Yomeddine” é uma parábola. Uma jornada de descoberta. E de nunca perder a esperança, ainda que a sobrevivência ganhe dificuldades estratosféricas. É cinema direto, que condensa a atmosfera do diretor Abbas Kiarostami, e seu mundo de deserto, com a naturalidade da própria vida em lutar de forma enérgica sobre os direitos de ser um “ser humano”.

O roteiro direciona o espectador por detalhes, como um simples quebra-cabeças: a mulher com problemas mentais, o “tesouro” de uma fita cassete encontrada no lixão, a curiosidade com o cabelo da cantora-atriz Madonna que estampou a capa de uma revista Newsweek. É fato. Nós nos acostumamos a ele. Suas deficiências e marcas não mais é um empecilho à afinidade que sentimos.

“Yomeddine” é a Caverna de Platão. É sair do gueto e explorar o mundo a sua volta. É a coragem de ir além ao desconhecido. A ganhar a cidade grande. A parar de se esconder. “Por que estes idiotas estão rindo?”, pergunta com sarcasmo interno. Beshay sofre todo tipo de preconceito, descaso e crueldade, passando por tipos, comportamentos, pesadelos, sonhos, projeções, religiões e inadequações dos outros, como a ignorância de dizer que “ele está infectando a água”.

É uma versão egípcia de “Forrest Gump – O Contador de Histórias”, de Robert Zemeckis. Só que neste, a aparência causa a estranheza. Mesmo com tudo, nosso personagem não perde a felicidade, o riso solto e a esperança. Nós espectadores somos contaminados com sua energia positiva de enxergar o mundo como um lugar melhor.

“Yomeddine” é a oportunidade de vidas acontecerem. De condensar quem é a verdadeira família. De ter que se confrontar com o mais primitivo lado de “Os Miseráveis”, de Victor Hugo. “Não há cura para nós. Não há outra vida”, resigna-se. E “salve a burocracia egípcia”, ironiza-se. Concluindo, um filme que emociona até os mais brutos insensíveis. Tudo dosado com a medida certa entre quantidades e qualidades.


Festival de Cannes 2018: “Yomeddine”


O egípcio Abu Bakr Shawky estreia na direção de longa-metragem em grande estilo: já na competição oficial a Palma de Ouro. Ficção. Com Rady Gamal, Ahmed Abdelhafiz, Shahira Fahmy. 97 minutos.


“Yomeddine” integra a mostra competitiva oficial do Festival de Cannes 2018.

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