Coletiva de Imprensa com Thierry Fremeaux

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2018


Há quem não sinta pena do que o diretor geral do Festival de Cannes, Thierry Fremeaux, passou na tarde de hoje. O encontro com os jornalistas aconteceu para explicar as mudanças deste ano. Nosso site não sentiu, mesmo com as polêmicas que confrontaram jornalistas, os impedindo de assistir antecipadamente os filmes. Agora, público e imprensa dividem (e lutam) por lugares nas sessões de gala oficiais.

Thierry explicou que no tempo de François Truffaut e André Bazin era assim. Tudo junto e misturado. Mas também era outro tempo. Outra época. Existia glamour? Claro que sim, contudo o foco principal era o filme propriamente dito. Outra pergunta polêmica, na verdade a primeira, foi se haverá mesmo a exibição do novo filme “The Man Who Killed Don Quixote – O Homem Que Matou Don Quixote” de Terry Gilliam. “Sim, porque está finalizado”, respondeu o diretor, que além desta função, é diretor do Instituto Lumière de Lyon e presidente da associação Lumière Brothers.

No ano passado, Thierry Fremeaux dirigiu o documentário “Lumière: A Aventura Começa”, um filme de montagem com 108 quadros rodados por Auguste e Louis Lumière, os irmãos que “inventaram o cinema”. É inerente a sua profissão e seu status ser diplomático, respeitoso e buscar “sair pela tangente” em certos momentos. Ele foi político, tolerante e compreensivo. Sim, muito por estar acuado com tantas perguntas sem “dó, tampouco piedade”.

Sir Thierry falou sobre a presença feminina em Cannes: “Têm mais mulheres que homens no júri. Tem uma maior presença feminina. Têm mais equidade e mais equilíbrio. Somos contra qualquer tipo de discriminação da sociedade. O primeiro filme para qualquer artista é o mais difícil. Elas são artistas, além de serem mulheres. O mundo está mudando”.

Sobre o confronto com a Netflix, disse: “Nós não estamos em briga com a Netflix. Nem com os jornalistas. Temos que ser mais respeitosos e mais diplomáticos. Sempre há conflitos com novas plataformas”. Sobre a imposição da Selfie no Tapete Vermelho, uma “praga” que atrapalha. “Você vem a Cannes para assistir aos filmes e não para tirar selfies. Todo mundo hoje é fotógrafo”, pontua categoricamente. E falou muito sobre a decisão de “permitir e integrar o público” nas sessões. E todo instante, corroborava, como uma mesma tecla batida no piano, de que “Nós, o Festival de Cannes, amamos a imprensa”.

“Este ano abre uma nova década. Não somos contra a imprensa, mas sim abrimos agora também ao público assistir pela primeira vez. Nós amamos a imprensa. Prefiro uma página com crítica do que poucas palavras em um Twitter. Naquele tempo, Truffaut, Bazin, assistia junto com o público. É uma mudança. Olhar o passado com óculos de hoje”.

Sobre como escolher um filme ou outro, e porque da escolha de ser no Un Certain Regard ou na Competição, disse: “Definir o significado do que fazer. Os filmes que se selecionam “Hi, sou um filme, estou aqui”. É respeitar o artista. É entender seu gênero e sua inclinação a qual mostra”. Sobre a “oscarização” de Cannes: “Nós temos muitas estrelas. Mas colocamos tudo na bagagem. Há o filme do Quênia e o novo Star Wars, passando por Jafar Panahi. Filmes vêm a nós. Escolhemos o que recebemos. São filmes artísticos. E não só políticos”.

“Netflix é um fantástico modelo de exibição. Eles produziram filme de Martin Scorsese. Se exibir um filme em Cannes, a Netflix tem que esperar três anos para poder exibir no seu streaming. E eles não querem esperar três anos. Cinemas são muitos importantes. Exibir em tela grande é incrível. Cinema é poesia. Cada filme tem um sinal”, diz com total paixão. É a fala de um verdadeiro cinéfilo. “São diferentes culturas. Americanos e Pedro Almodovar”, complementa.

Thierry altera-se com uma colocação mais pesada de uma jornalista. Ele fala sobre o embargo que continua. “De novo, não estamos contra a imprensa. Europeus por Cannes, americanos pelo Oscar”. Em determinado momento, eu tive uma epifania e de tanto o francês falar “The Press”, juro que entendi “Depress”. Sim, um bom paralelo na edição de 2018, que pegou todos de surpresa, se saber exatamente o que esperar.

“Fellini depois de “A Doce Vida” voltou a competir. Cannes é um evento cultural. Competição é uma coisa boa. Cannes é casa, pertence a todos nós, nós protegemos os artistas. Lars fui punido por ter feito uma brincadeira nazista e voltou hoje. Todo mundo está no protocolo. Não me sinto como Don Quixote. Pessoas vem trabalhar aqui. É um festival maravilhoso”, disse. E finaliza com “Federico Fellini disse vida longa ao cinema!”.

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