O maior filme de comédia do ano

Por Vitor Velloso


Chega aos cinemas brasileiro o filme de comédia mais cotado da temporada. “Teu Mundo Não Cabe nos Meus Olhos” conta a história de Vitório (o ator Edson Celulari) um pizzaoilo cego, que divide seu serviço com seu amigo Cleomar (Leonardo Machado), até que em determinado momento sua esposa Clarice (a atriz Soledad Vilamil) em uma conversa com um médico é surpreendida que existe a possibilidade de seu marido voltar a enxergar.

A grande comédia do filme se instala em seus primeiros planos, planos fixos que buscam dar espaço para os diálogos complexos e super elaborados que são expostos. De primeira é possível ver como a fotografia é uma das maiores forças do filme, uma luz que não se vê, contornos invisíveis e cores inexpressivas, tudo a favor da narrativa do filme. A proposta, que lembra Monty Python, pelo tom de caricatura nas atuações é fortalecida pelos cortes de plano e contraplano que são presentes no filme inteiro. Suas cenas servem como paródias da própria situação pseudo-dramático, onde vemos o personagem principal em um estádio, antecedido com um insert da torcida do Corinthians absolutamente pixelado, próximo ao Casseta e Planeta, comemorando um gol imitando uma foca epiléptica, com um sorriso de hiena suicida. Posteriormente, em outra cena, ele decide transformar sua performance completamente, criando movimentos corporais únicos em uma comemoração de gol, lembrando um mosquito com câimbra, posso estar enganado quanto a esta interpretação mas me remeteu a um pensamento Kantiano, de não ser possível entender a coisa em si.

Filosofia é uma das chaves para se interpretar o filme, pois a complexidade narrativa e da linguagem cinematográfica vai ganhando proporções a cada momento que passa, mostrando ao público que é possível divagar filosofia, discutir linguagem cinematográfica e fazer comédia ao mesmo tempo. Em determinado momento o pessimismo Nietzschiano surge em uma frase de um brilhantismo agudo “Você nunca voltou a enxergar, você só via quando era cego”. Além, é claro, de uma piada extremamente engraçada, é possível notar, claramente referências de Machado a Maiakóvski em toda sua estrutura.

E sua não bastasse toda a carga de informação apresentada no filme as expressões dos atores ao dizer certas frases são… difícil encontrar palavras. Mas conseguem transmitir um sentimento muito incisivo nos espectadores, como no caso onde Soledad Vilamil é obrigada a dizer “Tecnologia nova? É experimental?” Uma nítida compreensão de Philip K.Dick e Orwell, em um mundo contemporâneo rodeado de novas tendências tecnológicas. É logo após a frase ser dita um corte brusco troca a cena e a composição, o que nos lembra as digressões narrativas e estruturais de Kafka.

Enquanto vemos um personagem tentar imitar Hugo Carvana, com seu sorriso canastrão e bigode avantajado, entendemos que sua interpretação é uma sátira a própria interpretação como coisa em si, pois ela soa tão falsa que traduz conceitos de hiper realidades, que fazem Godard cuspir marimbondos. Mas é claro que como o humor permeia todas suas camadas não podemos deixar de citar o sotaque esquizofrênico do personagem de Edson Celulari, que além de uma interpretação primorosa fez questão de se preocupar com a dicção de suas falas em sotaques que vezes aparecem e vezes não, que geram muitas situações hilárias.

Não podemos deixar de mencionar a filha do personagem, Alicia (a atriz Giovana Echeverria), que além de inútil na trama e completamente forçada no arco dramático criam momentos de histeria juvenil para o filme que fez o cinema que eu estava dar muitas gargalhadas sinceras. Mas discutindo, também, o papel das personagens secundárias que não tem voz nem lugar na trama, sempre de maneira irreverente.

A montagem do filme cria um ritmo bastante peculiar para a obra, onde vemos tudo parecer lento demais ou inútil demais, é possível ser uma leitura Herzogiana, em uma proposta que lembra o novo cinema Romeno, mas de forma completamente diferente, de barrigas narrativas que complementam as complexidades dos personagens. E Vitório é um personagem extremamente complexo, ambíguo e multifacetado. Ele é cego, Pizzaiolo e Corinthiano. São características muito fortes para apenas um personagem, por isso suas motivações e atitudes, às vezes, nos parecem estranhas, pois, ele é tão complexo que beira a realidade da psique humana. E isto se reflete na linguagem do filme, onde vemos decisões estéticas que nos pareceriam absurdas, mas que neste filme encontram espaço como forma de impedir uma repetição em sua forma.

Qualquer interpretação errônea, me perdoe. Ficaria estarrecido se alguém me desse uma nova visão sobre o filme. Uma grande obra. Inesquecível.

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