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Por Gabriel Silveira


“Medo Viral” é mais um daqueles produtos do mercado que caem na cesta onde se aglomeram, fadados ao oblívio absoluto, aquelas baratas e limitadas tentativas copiosas de filme de gênero, e não de uma maneira de um produto direct-to-video, mais para direto para a prateleira do fundo de uma locadora onde estocam-se todos os slashers renegados por Hollywood. A premissa de sua trama é um alicerce perfeito para o estabelecimento do espírito direct-to-video, que soa como uma ideia oriunda da conversa de duas crianças de 14 anos que acabaram de maratonar quatro temporadas de “Black Mirror” e pensaram “Cara! E se nós escrevêssemos um roteiro onde todo o medo do homem para com o status quo de sua dependência tecnológica na pós-modernidade fosse regido por qualquer tipo de alegoria espiritual porcamente desenvolvida!?”, “Isso seria demais! Sabe o que seria ainda melhor? Se nós conseguíssemos uma dupla de diretores incapacitados que pudessem executar este projeto de uma maneira onde toda a precária estrutura dramática concretizaria-se como um fracasso fílmico incapaz de ser reproduzido, uma vez que afirma-se como o pastiche de todos os pastiches de gênero anteriores!”.

Sim, estamos falando do filme de terror — digo, fracassado festival de jumpscares — onde o fantasma encarrega-se de um aplicativo social que amaldiçoa todos que o baixam. A morte da jovem Nikki (Alexis G. Zall) é o pontapé inicial da trama, ela é a primeira de sua turma de amigos do colégio a receber uma visita do poltergeist Mr. Difilipo (Aron Hendry). Como este pretende executar suas vítimas? Assustando-as até a morte. Sim. Assustando-as. Até. A. Morte.

Após a morte de Nikki, Difilipo da continuidade ao desejo de acabar com o círculo de protagonistas do filme mandando convites do aplicativo amaldiçoado pela conta de Nikki. Apesar do receio, a turma inteira baixa-o e Difilipo passa a tomar conta do celular de cada um como um assistente pessoal virtual que faz todas as vontades de seus usuários, até o momento em que resolve puxar o tapete de todos dando início a seus jogos “macabros”.

Enquanto tentava reunir meus juízos ante a preparação deste texto, cheguei cogitar que, apesar do paupérrimo argumento, a ideia poderia servir como um curioso playground para um exercício de gênero e estética, mas infelizmente esse também não é o caso da fraterna dupla de diretores, os irmãos Vang, e o leitor não tem ideia do quanto eu ansiava, desesperadamente, durante a projeção que esse não fosse o caso, porque, confesso que o que tive de aguentar — não foi fácil.

Tudo é tão estéril em Medo Viral que o sentimento ao fim da projeção é o de ter acabado de assistir um imenso trailer de noventa e um minutos. O verdadeiro terror do filme é a estética anti-naturalista de comercial puritano que adota; a composição da luz, por toda a extensão da projeção, é mais insípida do que um copo de água gelado; a trilha musical soa inteiramente usurpada do freesound.com e é manejada com displicência; Os diálogos não são apenas enfadonhos, mas, executados como numa primeira leitura de roteiro em equipe, o timing da própria montagem de tais diálogos é capaz de deixar sobras de tempo entre linhas mais constrangedoras que o próprio texto; as atrizes são mantidas presas numa máscara de maquiagem de comercial da Avon durante TODO o filme, as personagens dormem com essa máscara, transam com a máscara, e finalmente morrem com a mesma. Os irmãos Vang são daqueles que estão tão desesperados para montar a sequência de um jumpscare que, após o vigésimo sétimo salto, o espectador mergulha num sentimento de vergonha alheia profundo quando percebe que as três diferentes fórmulas de montagem que os diretores assumiram para os saltos anteriores não assumirão qualquer vontade de dar fim a interminável repetição até o fim da projeção. Apesar de toda a previsibilidade intrínseca à razão de ser da obra, a dupla ainda tem energias de sobra para surpreender ao usar Nocturne op.9 No.2 de Chopin nos créditos finais por motivos que vão além da minha capacidade de leitura da mente dessa dupla prodigiosa.

A propósito de “Medo Viral”, a única pergunta que me faço é: como um estúdio é capaz de investir quantias significantes nas mãos de uma dupla que mais parece ter a potência espiritual e cinematográfica da mente de duas crianças de quatorze anos de idade que nunca foram capazes de assistir um filme que estivesse fora da estante de slashers da Blockbuster de seu bairro?

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