O tempo e o espaço de Hong Sang-Soo

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2017


O realizador Hong Sang-Soo segue a máxima do diretor Woody Allen na percepção de que até a obra mais fraca, é boa. O sul-coreano tem outras características do novaiorquino: o amor incondicional pelo ofício do filmar; a produção em massa de um filme após o outro; e a conservação do estilo-conceito.

Seu cinema é simples, mas nunca simplista, enraizando a técnica cinematográfica clássica, extraindo de seus atores a naturalidade-essência de seus personagens. Todo e qualquer filme é sobre a vida cotidiana e suas detalhistas micro-ações comportamentais. Sang-Soo consegue expor em tela sua maestria em contar histórias, material bruto este de toda e qualquer existência.

Em seu mais recente filme “A Câmera de Claire”, exibido na mostra sessão especial do Festival de Cannes 2017, o diretor corrobora o controle absoluto do tempo da criação. Sua narrativa conduz-se com a leveza do esperar sem a consequência do cansar. Seus intervalos, entre uma real ação e outra, são pululados de conversas, reações, bebidas, hesitações, covardias, liberdades e coragens.

Assim como seus filmes anteriores, “A Câmera de Claire” é sobre a arte do ser humano estar ser humano enquanto indivíduo social. É um estudo de caso sobre possibilidades que encontram acasos, que, por sua vez, permitem que novas experiências possam ser vivenciadas em sua plenitude e sem a defesa do boicote. Tudo é contado pelas conversas, à moda de Woody Allen e Noah Baumbach, pelos reencontros em cafés e ou em bares e ou em restaurantes regados à bebida típica.

Numa viagem de trabalho ao Festival de Cannes, Jeon Manhee (Minhee Kim) é demitida por sua chefe, que não revela o real motivo da demissão. Ao mesmo tempo, Claire (Isabelle Huppert), uma professora (de piano – outra referência ao diretor Michael Haneke) que sonha em trabalhar como poeta, sai pelas ruas tirando fotos em sua câmera Polaroid. Essas duas mulheres se conhecem e tornam-se amigas. Por acaso, as imagens de Claire ajudam Jeon a compreender melhor o momento pelo qual está passando.

“A Câmera de Claire” é sobre o tempo e sobre o espaço das perspectivas que viajam entre o antes e o depois, passado e futuro, mas sempre dentro de um presente confortável. É a linguagem metafísica (quase unânime sobre o universo do cinema) de encontros já definidos por seu autor, este que define, manipula e indica o caminho de seus integrantes da trama ficcional.

É a volta da atriz Isabelle Huppert, depois de ter trabalhado em “A Visitante Francesa”. Desta vez ela é alvo de uma brincadeira de ser uma iniciante. É uma auto-homenagem, como o cartaz de “Você e os Seus”, e uma homenagem ao meio, como no poster do Festival de Cannes 2016 e ou o close na palmeira. Ou como o catálogo do Festival do Rio 2015. Sang-Soo também busca a educação social. “A honestidade é o mais importante ao personagem”, diz-se, lutando por “verdades sinceras” e contra à desonestidade.

São planos longos, estáticos, sem urgência, sem ilusões da imagem, tudo porque a história é o mais importante. É a vida comum, literária, de cafés próximos à biblioteca, de momentos tímidos na praia de Cannes, e de histórias que acontecem durante o festival. É o mundo que todo e qualquer espectador quer viver e estar. “Estranho é um bom sinal – noventa e cinco porcento causado pelo álcool”, diz-se com a mesma melodia utilizada em seus filmes anteriores.

Entre conversas ao acaso, poetas, cineastas, atrizes, picardias com os franceses aos coreanos, não saber o que falar, objeto de atenção, instantes constrangedores, ver filmes, memórias, amigos, o cachorro – o elemento temporal de ligação, fotos Polaroid que sempre mudam as pessoas (“tira foto porque para mudar, tem que olhar”), as concordâncias “ótimas”, “A Câmera de Claire” é descontinuo, igualzinho a um filme de Jean-Luc Godard.

Sim, é também uma homenagem a Nouvelle Vague. É um filme para que cinéfilos sintam a cinefilia. É sobre o amor incondicional a sétima arte de um diretor despretensioso que encontrou a fórmula de nos encantar a cada obra.

Críticas Relacionadas

Crítica: A Visitante Francesa

A Fértil Metalinguagem da Coréia do Sul

Crítica: Certo Agora, Errado Antes

O mise-en-scène de vidas metalinguísticas

Crítica: HaHaHa

O Retrato de Mundos Particulares

Crítica: O Dia Depois

A Manhattan Sul-Coreana de Hong Sang-Soo

Crítica: Our Sunhi

Uma arte como material bruto a ser lapidado pelos olhos e percepções dos espectadores

Crítica: Você e os Seus

Aguarde a crítica completa! Em Produção!

Crítica: O Poder da Província de Kangwon

O Tédio Resiliente do Cotidiano

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Artigos Relacionados