Singela histeria em equipe

Por Vitor Velloso e Gabriel Silveira


Muito se discute sobre o processo de concepção de uma equipe como os Vingadores, que possui uma quantidade insana de super-heróis, cada um com suas personalidades e eles devem funcionar como uma equipe harmônica, pelo menos no plano visual do filme. Assim, grandes colaborações e cenas do, clássico, trabalho em equipe, com a música tomando conta da situação são previsíveis, mas ainda assim, plausíveis.

Por este motivo a crítica do filme será feita com a colaboração de Gabriel Silveira, também crítico do site. Claramente existirá um conflito, assim como nos filmes, por isso deixo avisado que qualquer coisa que desagrade o leitor, foi ele que escreveu.

Dito isso, a história do filme segue uma narrativa bastante linear e simplificada, Thanos, o vilão da vez, está reunindo as “Jóias do Infinito” para poder refazer o Universo à sua maneira. A trama das Jóias está sendo cozinhada pela Marvel desde o primeiro filme do Thor. Aos poucos, nos filmes, elas passaram a ganhar cada vez mais espaço, assim como a premonição de que Thanos estava por vir.

E aqui em “Guerra Infinita” o confronto com Thanos torna-se inevitável já que este está recolhendo todas as Jóias, para pôr seu plano em prática, por isso, todos os super-heróis da Marvel devem se unir para combatê-lo. O filme é dirigido pelos irmãos Russo que já haviam feito “Capitão América 2: Soldado Invernal” e “Capitão América 3: Guerra Civil”. Uma marca registrada dos irmãos, é a câmera na mão que costuma fechar o plano no personagem para criar maior tensão. Além de suas cenas de luta sempre filmadas com um frenesi próprio. Aqui não é diferente, mas como a proporção da trama está muito maior, algumas propostas estéticas sem mantém, agora, em outro formato, a câmera na mão passa a retratar um grande plano geral de destruição em massa.

O “tom Marvel” está presente, como sempre, a uniformização de seus trabalhos que beira a saturação estilística, se mantém. Piadas o tempo inteiro, frases de efeito, piadas fora de tempo que geram um tempo vergonhoso etc. A velha fórmula está mais presente que nunca, porém, o filme pode surpreender alguns espectadores por certas decisões dramáticas que decide tomar, que ao ver de olhos mais inocentes poderiam soar “corajosas”, mas sabemos como funciona a indústria cinematográfica de comercialização de ganchos baratos de sedução popular, diversas decisões serão desfeitas no futuro.

O filme busca apelar sempre para a captação nostálgica do espectador, sempre manipulando da forma mais vulgar possível para que qualquer público possa fornecer reações sinceras ao que está acontecendo na tela. E é necessário dizer, funciona. O público reage a cada corte do filme com um êxtase incontrolado. Cada estímulo que o filme busca provocar nos seus fãs, funciona, a expectativa que se construiu por anos é preparada de forma cuidadosa, para que o hype não só se cumpra, como seja inferiorizado pelo acontecimento. Assistir ao filme em uma sessão repleta de fãs, é um exercício duplo. De paciência e de estudo psicológico.

Aproveitando a deixa de Vitor Velloso, gostaria de apontar que tal esforço de compreensão psicológica certamente é o lado mais pesado e complicado da moeda de tal exercício. Porque, lidar com as longas sessões de saturação audiovisuais passadas do ponto, em congregação, é quase que um exercício tranquilo para qualquer espectador que já se deu ao luxo de experienciar o infortúnio de ser massacrado pelas tentativas de cinema daquela tal franquia de Michael Bay, pelo menos em Vingadores, o senso de gameficação da mise-en-scène em sequências de lutas não se permite a castração sensorial preguiçosa que a moda tem impregnado no medium. Em Thor: Ragnarok a escolha de Taika Waititi da entrega total a tal senso de construção gameficada da narrativa faz todo o sentido e chega a prover imensa remuneração sensorial ao espectador ao oferecer em uma bandeja de prata um Chris Hemsworth descendo os céus, completamente ensandecido, emaranhado em uma corrente elétrica divina, pronto para prover um ataque de área digno de um sentimento de combo perfeito em seu jogo de hack and slash favorito.

Em “Vingadores: Guerra Infinita” o mesmo acontece, porém, elevado à décima potência. Eleva-se não somente porque o fluxo e as escolhas de decupagem dos irmãos Russo revelam uma harmonia entre as referenciadas conexões de cada núcleo da série para com momentos de liberdade maior dos irmãos onde parecem levar a atenção da câmera para onde seus desejos de autoria realmente anseiam, mas, porque, tudo é espantosamente maior. Os riscos são maiores, não é só o universo que está em jogo, mas a integridade do Marvel Cinematic Universe.

Para verdadeiros fans (parte majoritária, quase integral, da projeção experienciada), a ideia por si só de perder o conforto da segurança de ver Tony Stark e Peter Parker dialogando na tela grande em 2020, por conta de possíveis fatalidades, desenvolve um senso perda iminente imenso nessa audiência que tem experienciado dois encontros ao ano com estes personagens há quase uma década. E nesse espírito, quase que beirando um saudosismo precoce, todas as mesmas piadas de sitcom mal calculadas e as epopeias gráficas saturadas são sensoriadas como as, possíveis, penúltimas. E estas não são como na maioria dos produtos audiovisuais da modernidade; em uma tela de celular com fones de ouvido, ou um streaming da Netflix em casa à luzes acesas ao mesmo tempo que são trocadas mensagens de texto — mas sim em uma projeção IMAX que explode no breu com toda a potência de um sistema surround no talo. O fan, ou, devo dizer, o devoto do MCU, não tem outra alternativa, a não ser sucumbir ao gozo histérico e absoluto desses — possíveis — encontros finais com seus santos.

Em seus momentos finais, o filme até chega a permitir-se a exposição de uma singeleza, quase que uma fragilidade, nunca antes concedida a seus fans, que abre até mesmo a possibilidade da institucionalização de um exército de mártires do MCU. Decisão quase que nobre por parte dos realizadores, resta saber se os produtores não planejam uma ressurreição em massa que manterá o pivot do principal fenômeno hollywoodiano da última década em sua inexorável zona de conforto.

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