Estrelas nunca morrem no cinema

Por Vitor Velloso


Existem experiências nas nossas vidas que transcendem aquilo que compreende a realidade a qual vivemos. Essas experiências não só ficam na história de nosso corpo e sentimento, como, abarcam um âmbito maior que nossa compreensão. Comigo particularmente, isso acontece com o cinema de uma forma geral. Alguns filmes ao longo da minha vida geraram sentimentos em mim que não consigo explicar, nem vou tentar. Este filme… não é um deles. Só to falando isso porque o título parece uma homenagem sincera ao cinema, quando não passa de um romance meia-boca contemporâneo.

A história acompanha o jovem ator britânico Peter Turner (Jamie Bell) que vive um romance com a atriz americana, bem mais velha, vencedora do Oscar, Gloria Grahame (Annette Benning), que descobriu uma doença e decide passar um tempo na casa de Peter na Inglaterra. Já nos primeiros dez minutos é introduzida uma proposta estética narrativa de montagem que se propõe a criar digressões temporais para nos mostrar as consequências de algumas situações antes de sua resolução. Isso se deve a uma ideia anacrônica que o filme assume ao tratar de um tema que depende diretamente do tempo mas sem ceder ao peso dramático clássico.

É necessário dizer que o efeito que esta proposta gera, é nulo. Enquanto existe uma preocupação admirável em contornar problemas dogmáticos que o tema poderia esbarrar, existe um profundo esquecimento naquilo que deveria ser o cerne do filme, seus personagens. Os protagonistas não possuem uma aprofundação psicológica que consiga carregar o filme à uma dimensão de empatia. Não há uma pretensão de fazer com que o espectador se importe com a história dos dois. O diretor Paul McGuigan, acredita na boa fé do público e que este invista suas esperanças na obra. É claro que ao analisarmos a carreira de Paul (“Heróis” e “Victor Frankenstein”), começamos a perder a esperança de que essa preocupação com os personagens seja possível.

A composição da mise-en-scène, busca uma carga dramática na situação em que os personagens são inseridos, mas não necessariamente em suas atitudes. Assim, vê-se um cuidado mais detalhado em criar um espaço de interação com os personagens, que não existe na construção dos mesmos. Os personagens do filme ganham segundo plano ao se tratar da experienciação da realidade que os cerca, pois, existe uma atração da obra à uma forma de sedução da hiper materialidade, de uma certa falsa representação do real. Esta artificialidade que se encontra em diversos momentos do filme é fruto de uma temática nostálgica que se estabelece na relação da Gloria com seu passado. Este passado distante que não mais retorna, só se distancia. E um futuro próximo que assusta e corre em uma velocidade assustadora.

Este é o efeito do tempo. Ele jamais nos espera, ele passa, e por onde o faz, nunca retorna. Uma das grandes dificuldades da personagem é lidar com esta passagem de tempo, existe uma recusa que é refletida em todas suas atitudes. Peter, representa não só alguém a quem recorrer em solidão, como uma figura cheia de vitalidade e energia que pode tentar resgatar essa mulher que não existe mais há trinta anos. Ao passo, que sua história já lhe provou dores e testes de maturidade que jamais foram impostos na mesma intensidade para Peter, desta maneira, a relação entre os dois, ganha um ar rebelde à visão de uma sociedade dogmática; sincera e anacrônica ao ver dos dois. Ao público restará um julgamento pessoal, seja ele de qual natureza for. A verdade é que por mais sútil que isso se introduza, existe uma pequena efemeridade nas relações que remetem a um breve pessimismo quanto relacionamentos como um todo. Este desgaste que é levado a partir de um ganho intenso de intimidade, é inevitável. Cabe a nós, ou aos personagens, lidar com isso da forma mais racional possível, ou não.

Independente de qual rumo o filme toma, já sabe-se de antemão que este sofrerá, em seu fim, uma dose de eufemismo e empatia que está estampada no rótulo do filme. E desta maneira, pequenas cargas de drama que são introduzidas na narrativa perdem a relevância não pela montagem, nem pela direção, mas por um roteiro que se rende a clichês do gênero e que se utiliza disso como recurso estético.

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