Somente o espectador sabe

Por Vitor Velloso


James Marsh conseguiu alavancar sua carreira através de “O Equilibrista” em 2008 que lhe garantiu o Oscar de melhor documentário e do sucesso de público enorme com “A Teoria de Tudo” em 2014, que rendeu o Oscar de melhor ator para Eddie Redmayne. E ao falar de “Somente o Mar Sabe” entendemos que nem sempre sucesso de público é sucesso de crítica e que existe um ato de inteligência única no filme.

O filme conta a história de Donald Crowhurst (Colin Firth) um amante da navegação e micro empresário que decide participar de uma competição no qual o objetivo é dar a volta ao mundo sem paradas, a Golden Globe Race. E como a viagem é muito longa ele é obrigado a abandonar sua esposa, Clare Crowhurst (Rachel Weisz) e filhos, para a competição. A história é contada através de uma lente aventuresca, grandiosa e quase inocente. O diretor tenta nos passar essa sensação de euforia para nos preparar para a grande aventura, onde falha vergonhosamente.

Os primeiros quarenta minutos de filme possuem uma montagem muito veloz, as cenas são curtas pois tudo que interessa ao filme é a competição, a viagem, assim tudo é estabelecido de forma apressada e raza. É impressionante como o processo de pensamento do filme é único, pois tudo que o filme tenta criar não dá certo, todos os sentimos que a música, montagem e direção tentam construir são clichês e não passam de pastiche anti criativo. Não trata-se apenas de um filme equivocado em suas atitudes altruístas de emocionar o público ou nos passar qualquer mensagem, trata-se de um filme nocivo a própria existência deste enquanto obra intelectual.

O esforço aqui é tamanho para construir um dos piores filmes do ano, ainda em abril. Pois eu me recuso a acreditar que exista tal obra à disposição de uma força de vontade criativa. Nem Colin Firth, nem Rachel Weisz salvam o filme, muito pelo contrário, até as atuações deles estão duvidosas. Em alguns diálogos eu tinha quase certeza que o ator ia rir em seguida, pois diversas falas do filme beiram o cômico. Em determinado momento, uma tempestade atinge o barco do protagonista, essa cena, em seus planos gerais, é feita com CGI, mas de uma forma tão desleixada que me permite fazer uma comparação ao lendário efeito especial da viatura no filme nacional “Reza a Lenda”.

Todos os clichês de Hollywood estão aqui, com uma roupagem ainda mais brega, trata-se de clichês norte-americanos interpretados por britânicos em situações cinematográficas dignas de vaias. A cafonice do filme atinge um grau tão elevado que uma leitura Benjaminiana nos levaria a um conceito de pós modernidade extremamente complexo, onde o fútil é fútil e o tolo é tolo. É uma gama de representações e reproduções que ganham forma através de alguma inspiração infantil, idealizada por uma criança ainda mais nova.

É possível que o leitor não esteja entendendo o meu ponto, mas a verdade é que existe uma caracterização de subjetividade em qualquer forma de expressão. E no filme isso é evidente, quando um “autor” decide interpretar outros “autores”, isso gera uma ramificação muito confusa na própria estética do filme. Não são inspirações, é falta de ideia. É a pura definição de não saber o que está fazendo. A bagunça que se instaura dentro da própria estrutura do filme, que nos faz gargalhar, é um espelho para o próprio filme. Enquanto a fotografia se esforça ao máximo para trazer algum pensamento ao filme, o próprio diretor de fotografia, Eric Gautier, perde o interesse no filme e atua com desleixo compreensível.

Quando o filme mostra um velejador sem experiência no Oceano que decide participar de uma competição que ele deveria dar a volta ao mundo, parece estar falando do diretor. A diferença é que nem o material trabalhado possui algum valor significativo. O filme além de sua montagem corrida e perdida, possui um ritmo digno de seu protagonista, parece que não anda. A linha estreita que o filme decide percorrer sempre pendula entre a catástrofe e o sentimento de desistência, parece estar falando de si.

E se antes escrevi sobre o filme, agora me desdobro para achar palavras que sirvam ao filme ou será que estou apenas tentando finalizar uma crítica? Independente disso, faltam palavras para adjetivar este fil…troço.

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