Paradoxos e embates antropológicos

Por Victor Velloso


“Praça Paris”, dirigido por Lucia Murat (Quase dois irmãos e A Memória que me Contam), se inicia com uma personagem nadando em águas azuis, porém turvas, um prelúdio da narrativa que irá se seguir. O filme tem como eixo narrativo a relação entre Camila (Joana de Verona), portuguesa, branca e psicóloga, e Glória (Grace Prassô) brasileira, preta, pobre e moradora de favela. Sendo a segunda paciente da primeira, a relação entre elas possui certo grau de proximidade e sinceridade, mas uma questão de posicionamento social que circunda os discursos de ambas as afasta de forma irremediável.

Tal distanciamento gera inevitáveis choques de realidade quanto a posição de uma e da outra dentro da sociedade, e assim, geram diálogos recheados de acidez por parte do roteiro, que transforma a comunicação das duas como ponto de ignição para questões enraizadas na sociedade brasileira, como o racismo e a desigualdade. A construção se dá desde o início com uma montagem dialética entre suas representações e empregos, mostrando as desigualdades entre ambas as personagens.

A passividade da psicóloga nas primeiras consultas, apenas como ouvinte dos relatos de Glória, abre espaço para que esta seja cada vez mais incisiva em seus comentários, para gerar o choque e a incitação, mas sempre com um tom quase de sarcasmo à uma semi-vassalagem ao chamar Camila sempre de “doutora”. Os conflitos que se iniciam nas consultas vão ganhando dimensão com o passar do tempo, as provocações de Glória passam a incomodar Camila, a incitar um medo crescente e um passivo-racismo que estava inerte na personagem.

“…a minha família sempre disse, que o culpado da morte da minha vó, tinha sido o Brasil, e eu nunca acreditei.”

Lucia Murat conduz esse conflito social através de pequenos gestos, como uma aluna que assiste pelo celular o tiroteio que está acontecendo onde mora Glória. Esta que possui um irmão que se encontra preso, Jonas (Alex Brasil), com quem tem um relacionamento de parasitismo nocivo a sua integridade emocional e física, já que esta é interrogada e torturada por policiais para que revele informações sobre ele. E para agravar, ela se encontra apaixonada por um ex-traficante, Samuel (Digão Ribeiro) que possui uma dívida com Jonas. Algumas dessas relações são replicadas de “Quase Dois Irmãos”.

“…saco plástico você já deve ter visto nos filmes né?”

São frases como essa que Glória utiliza para provocar essa empatia limitada que Camila tem por ela. E este é exatamente o tema do filme, a empatia consegue ser mais forte que a segregação social? Até onde esse relacionamento consegue ser saudável para ambas as personagens? E qual o limite da ética dos poderes de julgamento que se impõe a moral em conflito? Essa resposta é dada da forma mais crua possível. Afinal o maior medo da classe média não é de pobre, é quando este desce do morro e passa a conviver e interagir com eles. Existe uma resistência muito forte quanto a natural carnavalização e equalização de forças sociais. Na visão dos pobres, trata-se de uma justiça em forma de resistência social, na visão da classe média, trata-se de uma promiscuidade coletiva fruto de uma bestialização iminente. E é nesses paradoxos e embates antropológicos que o filme navega.

“Você me enxerga como um bicho de zoológico, né?

Enquanto, tudo isso é desenvolvido, Murat introduz intervalos narrativos para aumentar a profundidade do desenvolvimento das personagens em particular, nos convidando ao estudo enquanto amarra pontas de realidades diversas em um Rio de Janeiro, multipolarizado. E se o flerte com Antonioni já era possível, a diretora usa estes intervalos narrativos de montagem mais cadenciada para criar longos respiros em planos arquitetônicos pela cidade, mostrando todo o movimento que existe na paisagem. “Arquitetura é música congelada” Goethe.

Como consequência destas pequenas pausas, o ritmo do filme é prejudicado levemente, sendo um pouco mais arrastado em seu meio. Grace Prassô é um destaque especial do filme, consegue ser multifacetada em pequenos detalhes, várias vezes com um ar de deboche que geram sentimentos diversos no público. O novo filme de Lucia Murat se destaca por sair de alguns clichês óbvios, mas tropeça em alguns e prejudica o ritmo e a crítica ganha formas diferentes, e possui um último plano difícil de digerir… acredite, não foi um elogio. Porém, renova as forças dos contos sociais cinematográficos se afastando das chanchadas-pseudo-críticas-neo-artísticas burguesas. Sim, isso é um gênero do cinema contemporâneo brasileiro.


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