As infinitas e livres cores de Primot sobre o amor

Por Fabricio Duque


Com o novo filme de Rafael Primot, “Todo Clichê do Amor” aumentamos a desconfiança de que talvez seu diretor não sinta sono, devido seu lado multifacetado de conjugar televisão, teatro e cinema. Talvez ele seja um extraterrestre perdido na Terra ou um ser muito focado na sistemática de sua rotina. Aqui, corrobora-se a estrutura de seu último filme “Gata Velha Ainda Mia”, que é encenar a naturalidade pela teatral ambiência da livre imaginação da realidade. É uma ingênua desconstrução ao amadorismo da própria vida.

É um filme coral de esquetes de existências perdidas, descontroladas e errantes por natureza. De instantes que se encontram em determinados (e catárticos) tempos, mitigando a perspicácia e mergulhando o espectador em uma inocência interiorana de limitadas percepções. É utilizar o artifício do clichê como um propósito de fugir do próprio clichê, usando o veneno a própria cura.

Diferentemente de seu filme anterior, “Todo Clichê do Amor” escala grande elenco em núcleos. E em todos, pretende personificar e humanizar o simbolismo do amar. Por suas idiossincrasias, vulnerabilidades, fragilidades, incompatibilidades, defesas, por seus surtos, choros, silêncios, desencontros e deturpados sinais recebidos, todo e qualquer ser humano almeja outro alguém para chamar de seu, para acalentar a alma e amansar o primitivo e instintivo estímulo da “caça”.

É também um estudo de caso sobre o que é amor e seus limites, recepções e recíprocos feedbacks. No filme “O Clube dos Corações Partidos”, de Greg Berlanti, há um diálogo que diz que o amor de fascinação vem mais do outro do que de nós mesmos. Sim, aqui, este sentimento é traduzido por correspondência. É encontrar a “freqüência do amor” (e a metáfora do “alfinete” em uma narração que conduz o espectador às próximas ações de seus personagens.

“Todo Clichê do Amor” é um filme de situações, de acasos, de futuros encontrados e descartados. É estranho, surreal e irreal, assim como todo processo de um relacionamento. A narrativa une plásticas estéticas visuais de David Lynch (as cores da abertura) a Pedro Almodóvar (a cena em olhar o celular do falecido no caixão), passando por uma sutil inferência a “Os Guarda-Chuvas do Amor”, de Jacques Demy. E imprime organicidade e metalinguagem. É uma balada de um amor louco. De querer e poder.

Na cidade de São Paulo, uma prostituta deseja se tornar mãe; uma garçonete comprometida tem um admirador capaz de se tornar assassino para provar seu amor; e uma madrasta tenta cativar a enteada no velório do pai. Histórias um tanto quanto esquisitas sobre amor que revelam inusitadas formas de afeto quando colocadas em contato.

O longa-metragem é irregular. E talvez por propósito. Uma das maestrias do filme é seu roteiro que referência o amor em vertentes literárias que vão de Camus a Shakespeare. “Alcançar o amor sem luta é melhor ainda”, “A medida do amor é amar sem medida”, diz-se. É uma sucessão de clichês, estes o material bruto para construir a inocência de amores perdidos em individualistas existências platônicas. E urgentes.

É sobre um “louco desvairado de amor”. Sobre um “dos milhares de caras que você vê todos os dias no metrô”. É coloquial de espontâneo status do existir. Sobre um personagem que narra e mente a própria ficção. Entre compromissos alheios, língua dos sinais (com referência à música da Xuxa – “A de Amor, B de Baixinho, C de Coração”), o cigarro ao impotente. É sobre amores expostos em verdades por conversas e confissões com qualquer um e em baixas auto-estimas.

“Todo Clichê do Amor” é sobre “loucuras de amor”. Quem nunca fez, atire a primeira pedra. “O que se faz por amor, está além do bem e do mal”, diz-se com “polos invertidos”, imã gigante que repele, “bobagens loucas” e “Desespero de amor” (livro do próprio diretor). Não há como não gerar no espectador a curiosidade de contar quantas vezes a palavra amor (e ou o sentimento subtendido) aparecem em cena e como querer-poder-sonhar dos personagens da vida real.

É também um filme de atores. Que estão ali para brilhar suas qualidades em papéis despretensiosos. Que dividem espaços e talentos. O melhor esquete é definitivamente a cena da sadomasoquista (a atriz Marjorie Estiano – impagável e irretocável – completamente entregue) e seu cliente (o ator Eucir de Souza – que nunca interpreta – ele encarna sempre, sem ressaltas e sem medo da volta). Eles interpretam e trocam com química e literatura popular. A segunda melhor é a personagem da atriz Gilda Nomacce. Há raiva, loucura, surto, choro, grito, tem tudo. Até vendedora da Avon. “Pepsi nem vende. Quer Fanta Uva?”, pergunta-se.

“Todo Clichê do Amor” é meio desengonçado. Meio pastelão. Meio trapalhão. Meio embaraçado. Meio embaralhado. Meio açucarado. Meio brega. Meio conivente. Com um que hipster blasé decadente de uma Lana del Rey abrasileirada e uma inferência a “Sonhos”, de Caetano Veloso. Andar apaixonado é melhor que andar sozinho.

“Todas as histórias de amor são iguais”. Sim, mas também, neste caso, são estéticas, vermelhas quentes e iguais a um morango. É também um filme musical com sua epifania libertária da ópera Madame Butterfly e que não tem medo de cair no kitsch de dizer “Eu te Amo, Eu te Amo, Eu te amo”.

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