Preenchendo lacunas de velhos clichês

Por Vitor Velloso


“A Psiquiatria não é ciência, é pura ficção”. A fábula policial se inicia com um brutal assassinato, que irá servir de esqueleto narrativo para a trama. Conduzido através de uma câmera suave e paciente, o filme se mostra mais simples do que aparenta e mais complexo que seu gênero. O Drama Policial é um gênero saturado na Indústria com todos seus clichês, lugares comuns e frases de efeito. Curiosamente, “Terceiro Assassinato”, de Hirokazu Kore-eda, busca preencher os espaços que a trama deixa com uma delicadeza nostálgica e doce, mas nunca inocente.

O filme conta a história do advogado Shigemori (Masaharu Fukuyama) que está defendendo o assassino Misumi (Koji Yakusho), este que possui uma versão diferente dos fatos toda vez que é interrogado. O filme cria uma atmosfera de tensão a partir de suas relações dramáticas ligadas a psique das personagens, movidas quase que de forma mística através de uma relação entre ficção, realidade e memória. O tom sempre desolado de fala humanística, é intensificado por quebras de eixo que tiram o espectador do lugar de conforto, gera uma discussão de conceitos filosóficos acerca da vida que, vezes flerta com o pessimismo, vezes com um otimismo de Epicuro que nos faz respirar com pianos flutuantes e lentas que são de um fluxo interminável.

Mas a tragédia tem seu lugar de origem e fim, e assim sendo, o ciclo sempre torna à melancolia das memórias que se foram.

Como uma enunciação do poder, a justiça é discutida no filme a partir dos conceitos gramaticais e da ética que a isto implica, não por acaso, o personagem principal do filme é um advogado. Alguém que possui o poder sobre a vida das pessoas, mais ainda um Juiz, ambição de infância do protagonista. Esse poder, viola o arbítrio das Vontades? Ele está apenas a favor do Destino de uma maneira maniqueísta e cínica das forças Humanas? Essas indagações são feitas de maneira homeopática, buscando compreender a grandeza das perguntas, sem proferir as repostas, sempre temendo-as. Esse caráter de deidades a fatos psicológicos das pessoas, constroem uma densidade sufocante a investigação.

Pois o assassinato deixa de ser o real fator do processo. As frivolidades de certos atos que se tornam o combustível para tudo aquilo, exatamente aquilo que não compreendemos. Pois já sabemos sobre o crime, a questão é porque ele age de forma alheia a própria situação? O jogo de representações entre os personagens se intensifica na fotografia que busca horizontalizar as relações a fim de sempre que possível, confundi-las. Pois o roteiro busca verticalizar os situações dos personagens, quem possui o poder, o julgamento, a penitência…

Enquanto o filme busca essa discussão acerca do destino e do poder decisório, os enquadramentos reforçam a horizontalização sempre buscando enquadrar personagens da mesma cena para criar essa aproximação entre as forças da cena. Assim como sempre que possível faz super-closes para que possamos analisar os personagens e entender suas reais frustrações e sentimentos. O jogo do filme é essa busca pelos sentidos, que nunca atingem realmente os personagens e sim o público, essa tentativa de correlação entre humanidade e ética. A moral dessa relação de proximidade é absolutamente questionável e é por isso que incomoda, pois a identificação vem por parte dos absurdos narrativos e dos elos psicológicos de personagens assustadoramente fragilizados.

Uma relação não muito esquizofrênica com “Creepy” do diretor Kiyoshi Kurosawa, de 2016 é plausível pois ambos são dramas policiais que buscam entender as lacunas psicológicas de seus personagens e por essas lacunas relacioná-los. Da mesma forma ambos os filmes, traduzem os medos e vontades de suas personagens em longos planos de confrontação reflexiva, e que nesta montagem possamos buscar as nuances de suas caracterizações, reais ou virtuais. A imagem nestes filmes possuem uma ambiguidade própria do termo, ela cria metamorfoses para si tornando-se intransponível em diversos níveis e objeções. E todos sabemos que quando a virtualidade alcança a realidade, a verdade se perde numa dança tênue com a ficção e o absurdo, numa mediação semi-metalinguística com a destruição estrutural do enredo.

Mas nem tudo no filme é filosofia e meandros psicológicos, isso são digressões narrativas e estéticas que constroem o verdadeiro filme, pois o enredo como um corpo único é clichê e previsível. O ritmo é instável e será necessário do espectador paciência com micro-reviravoltas e cenas marcadas e óbvias.

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