Orgulhos em uma partida de xadrez

Por Fabricio Duque


Esta é uma crítica diferente. Mais subjetiva do que as outras. Tudo porque há muito uma série, e ou um filme, não me faz perder horas adentro na madrugada, virar literalmente a noite e dormir às sete horas sabendo que meu despertador tocaria às oito para que eu iniciasse mais uma rotina diária de afazeres. Este preâmbulo pessoal é extremamente pertinente e necessário para se falar sobre “Doctor Foster”, uma obra televisiva inglesa produzida pela BBC.

Criada por Mike Barlett, o primeiro episódio da série foi ao ar em nove de setembro de 2015, e a segunda temporada, de 2017, já se encontra completa na Netflix. Dirigido por Jeremy Lovering, Tom Vaughan e Bruce Goodison, três homens que se alternaram para abordar até que ponto uma mulher chega para lutar por seu casamento.

É uma série que disseca os sentimentos genuínos mais obscuros e escondidos na alma, fazendo com que seres humanos exponham suas mais primitivas fragilidades, vulnerabilidades, defesas e vinganças, mascaradas em forma de proteção a um familiar ente muito próximo e amado. Quanto mais assistimos, mais as hipocrisias vêm à tona, nos imergindo no egoísmo ultra individualista de cada um deles.

“Doctor Foster” em duas temporadas com dez capítulos, de quase uma hora de duração em cada um, pode ser traduzido como uma mistura referencial do universo de Stephen Frears (e seu universo de “Ligações Perigosas”) com Adrian Lyne (de “Infidelidade” – por causa de sua sutil terapia cognitiva do confronto), estes, ambos britânicos, e com uma versão madura (e sem o subterfúgio surreal dos mastigados alívios cômicos) da série “Desperate Housewives”.

É uma obra que se contrói pelo tempo, pelas insinuações, pelas mais pequenas dicas-pistas, e principalmente pelos olhares, que quando reagem nos contam e explicam tudo sem palavras. E claro pelo planos, armações, manipulações, jogos psicológicos em contra-planos de perdas e ganhos.

Ao suspeitar da traição do marido Simon Foster (o ator Bertie Carvel, de “Os Miseráveis”, e dos seriados “Babylon”, “The Crown”), a médica Gemma Foster (a atriz Suranne Jones, de “Love and a Long Shot”, “Broken Hearts”, e os seriados “Doctor Who”, de 2011, e que em 2018 integra o elemento de “Save Me”), se lança em uma obsessiva investigação para “proteger” seu filho Tom (o ator Tom Taylor, de “A Torre Negra”).

“Doctor Foster” é aquela típica obra que nos embarca em um jogo de xadrez que realmente não sabemos qual será a própria jogada. Todos brigam pelo xeque-mate, atropelando qualquer um que atravesse seus caminhos. Vence quem possui mais cartas na manga e estômago para aguentar. E ou a derrocada desistência. De qualquer forma. Este casal em guerra (quase lembrando “Sr. & Sra. Smith”, de Doug Liman) precisa lidar com as nuances da deslealdade, surpresas, silêncios, segredos.

Os atores, todos eles, estão impecáveis e irretocáveis em uma sério eletrizante de personificar o lado mais podre da sobrevivência de seus orgulhos feridos. Seu roteirista disse que a história ainda vibra sua força. Que bom! Porque a segunda temporada termina em aberto. E juro que quase convidei o criador para uma partida de xadrez valendo conhecer os novos episódios, tamanha está sendo minha curiosidade: passional, cruelmente afetada pela alta carga de qualidade empregada e transmitida.

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