Entre olhos maliciosos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival do Rio 2017


Exibido na mostra competitiva do Festival do Rio 2017, “Aos Teus Olhos” ganha uma adaptação cinematográfica, pelos olhos particulares da cineasta de “Boa Sorte”, Carolina Jabor (que, pelo tom imagético, de personificar em tela o psicológico, transforma a máxima “a maldade está nos olhos de quem vê” em uma concretista discussão sobre o pré-julgamento na contemporânea era digital), do livro “O Princípio de Arquimedes”, escrito pelo catalão Josep Maria Miró, depois de ser ter sua montagem encenada em diversos países, inclusive no Brasil, pela direção de Daniel Dias da Silva.

“Aos Teus Olhos” é um filme sensorial. Que esmiúça detalhes, dicas, pistas, olhares e estereótipos para imerge o espectador na dúvida, principalmente pela encarnada câmera subaquática, estimulando o debate dos limites do mundo moderno ultraconservador e de excessos politicamente corretos, sobre a precoce e estimulada sexualização comportamental do público infantil.

Micro-ações são acompanhadas: o corpo desnudo com uma sunga de piscina, o beijo na testa, o toque no braço, os carinhos excessivos Até então, nada demais. Mas quando a semente da desconfiança é despertada, então a percepção é aguçada, observando-se mais com maior atenção, como um jogo psicológico de se encontrar as causas do “erro”, do “pecado” e da “sacanagem”.

Nós vivemos em um mundo da imagem. Da aparência de alguém bonito que se torna o objeto de desejo de todos, cuja boniteza é massificada e vendida como um padronizado produto de bem-estar aos olhos. E este ser, Rubens, o protagonista, sabendo possuir tal beleza e do corpo sarado, flerta mais, sorri mais, anda desfilando como um modelo em uma passarela, e potencializa ao máximo o iludido complexo de Narciso, acreditando que causa “tesão” a toda e qualquer criatura passante.

Não há como referenciarmos ao livro “Dom Casmurro”, de Machado de Assis, pela presença da suspeita, que beira o mais impuro ar de nossas primitivas perspicácias (e que não soluciona para sugestionar e para criticar nossas impulsivas e definidas elucubrações; e ao filme “A Caça”, do dinamarquês Thomas Vinterberg, pela semelhança temática empregada, de prévio julgamento imediatista e malicioso achismo popular.

“Aos Teus Olhos” traz também a questão do profissional professor (que é um educador, neste caso, físico, em que o corpo do outro é o enfoque do trabalho), que precisa ser incisivo e amigo ao mesmo tempo, falando na mesma língua, ensinando que competir é mais importante que a vitória (“Tem que saber ganhar e perder”) e lidando com a figura dos pais “que ferram a cabeça das crianças” (com a obrigação competitiva de sempre estar no primeiro lugar), e que fofocam com cruéis comentários as vidas alheias, nunca dando o benefício do perdão a suas “vítimas”.

Rubens (o ator Daniel de Oliveira) é um professor de natação carismático, direto, extrovertido e sem moralismos (que, como todo e qualquer ser humano, comete deslizes compreensíveis: fumar no vestiário e ou falar de alunas “gostosas” a um colega de trabalho e ou faz brincadeiras depreciativas, machistas, preconceituosas no tempo de sua vida privada), que dá aulas para pré-adolescentes em um clube.

Querido por todos devido ao seu jeito brincalhão e parceiro, ele se vê em apuros quando um de seus alunos, Alex (o ator Luís Felipe Melo), diz à mãe que o professor lhe deu um beijo na boca no vestiário. Alegando inocência, Rubens é acusado pelos pais da criança e passa a ter que lidar com um verdadeiro linchamento virtual, que tem início através de mensagens de WhatsApp e explode de vez quando chega ao Facebook. Ele torna-se um pervertido do dia para a noite.

“Aos Teus Olhos” não é sobre a culpa ou inocência, e sim sobre a urgente necessidade da condenação. No Direito, todo e qualquer cidadão é inocente até que se prove o contrário. Todos possuem a presunção da inocência, palavra esta, quase uma tautologia, que gera, no mundo de hoje, uma atrasada, retrógada e incompatível sensação de não pertencimento. Tudo porque estamos cada vez mitigados mais de genuínas ingenuidades. Ouvindo mais o que crianças têm a dizer, sem levar em conta suas mentes em construção, ora com imaginação, ora com subjetividade, mas sempre com imaturidade.

O filme, que se desenvolve pela ambiência da trilha-sonora com suas batidas rústicas de batuques à moda de uma preparação à cerimônia do colocar no fogo, é muito mais que um estudo de caso sobre a pedofilia. É um tratado filosófico sobre os mais básicos sentimentos da humanidade, que cria bárbaras emoções, como um pai intolerante (e ausente e hipócrita), o ator Marco Ricca, às diferenças comportamentais, que nivela com clichês padronizados e desengonçados de que Rubens “fez porque talvez seja gay” (aumentando a “possibilidade do crime”) e não separa “normalidades”.

Não há mais volta: Rubens já é culpado antes de ser julgado pela justiça. O “tribunal” dos usuários do Facebook já determinou a sentença, viralizando na internet as ações e suposições do “meliante”. É o linchamento virtual: “Avassalador, grande e rápido”. Que quer um culpado na hora (sem necessariamente ter certeza). De “Pessoas que querem dar a última opinião e apagar a anterior”. Ele já perdeu a credibilidade. É o “povo” contra a “fruta podre”, com o único objetivo de assediar e destruir a vida deste ainda nem está em julgamento. Todos são advogados, juristas e conhecedores da lei. Qual o problema de um beijo na cabeça virar um na boca? Qual o problema em não levar em conta o jeito espontâneo do tarado molestador? Qual a necessidade de conversar antes e acusar depois? Rubens precisa ser punido e o colocar no inferno.

“Aos Teus Olhos” é uma crítica a nossa sociedade que cada vez fecha mais os olhos a obviedades. É um assunto delicado que mal interpretado pode gerar injustiçadas conseqüências irreversíveis. Será um carinho ou uma carícia? Como perceber tais sutilezas? Sim, são as palavras dele contra “supostas” evidências. “Mulher pode beijar, homem não. Mulher pode tomar banho junto, homem, nunca”, defende-se das agressões psicológicas, morais e físicas.


“Moralismo, culpa e a metáfora lágrima seca. Um filme de água o tempo todo. Suspeita, drama. Cada história se impõe, vai se colocando. Um tema muito difícil de lidar. Natação, um ambiente muito fluido, lugar muito sensual. Latino pega, abraça e beija. É natural e ingênuo, mas pode mudar a vida de muita gente. O filme tem vinte e quatro horas de crucificação. Ele não teve tempo para se defender. É um filme muito seco. Não deu para colocar firulas. A verdade é o que cada um acredita”, disse a diretora no pós debate do filme.

“É a irracionalidade das relações coletivas, que são assustadoras. Pela pressão da sociedade. Começa-se queimando livros, depois pessoas”, finaliza a Professora Claudia Chaves. Vencedor dos prêmios de Melhor Ator (Daniel de Oliveira), Ator Coadjuvante (Marco Ricca), Roteiro e o prêmio do público de Melhor Longa-metragem de Ficção no Festival do Rio 2017.


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