Brincadeira mal feita

Por Bruno Mendes


O cinema estabelece distintas sintonias com o universo dos games. Aos jovens, adultos e crianças é fácil imaginar jogos explosivos e divertidos sendo transformados em filmes com atores famosos e narrativa com regras próprias da sétima arte, porém com boas referências ao universo do Nintendo, Playstation, etc. O longa Rampage – Destruição Total, dirigido por Brad Peyton (de “A Viagem 2 e 3”, “Terromoto 1 e 2”), é inspirado no último game da série “Rampage” e nas sequências frenéticas, até ressalta os embalos aventureiros e surreais que cativam a galera do jostick. Imagina só um King Kong albino trocando porrada com uma espécie de Godzila que mergulha por dentro das paredes dos arranha-céus. Infelizmente nem tudo são flores, ou pior, poucas coisas são.

O quesito inspiração passa longe na concepção cinematográfica e este Rampage nada mais é que um enfadonho amontoado de convenções.

É até curioso pensar que o saudado Dwayne Johnson, figura chave em filmes arrasa-quarteirões, dessa vez concebe um tipo pouco carismático. Na trama ele vive o primatologista Davis Okeye, que oferece mais carinho e confiança aos animais que aos seres-humanos em razão da sinceridade dos bichos, “ se eles gostam, te lambem se não gostam, te devoram”. Quando um experimento genético mal sucedido transforma George – um inteligentíssimo gorila que está sob os sob os cuidados de Okeye – e outros animais em criaturas gigantes e incontroláveis, ele precisa encontrar um antídoto para impedir uma catástrofe sem precedentes.

Clichês do início ao fim? Certo, mas ainda assim é justo concluir que Peyton buscou conceber um universo atípico. O nível de despretensão de Rampage – Destruição Total é alto mesmo para produções de propostas semelhantes e as atuações sofríveis são quase um aviso: “você aí da sala escura, tudo isso aqui é uma grande brincadeira”. Se vilões ultrapassam a barreira da caricatura e são basicamente cartunescos, o protagonista e seus auxiliares seguem pelos mesmos trilhos superficiais, porém são enfraquecidos pela ausência de carisma cênica. É claro que seria injusto esperar algum tipo de elaboração mais cuidadosa na “construção de personagem” em obra que segue pelo caminho descrito, mas quando o objetivo maior do produto é o entretenimento, o pecado não pode ser tolerado.

Em entrevista ao site de games IGN o cineasta Brandon Peyton pontuou que havia “pressão em entregar um grande espetáculo” e questionou: “O que eu posso fazer aqui com o que é novo e não repetitivo com o que já existe?”. Como espetáculo visual Rampage – Destruição Total é competente e as sequências que envolvem o ataque dos animais aos humanos, e a briga entre eles no cenário urbanas são bem executadas e divertidas.

Contudo, a falta de criatividade da trama e a inserção exagerada de piadas sem graça, ou obviedades pretensamente engraçadas que nem piadas são, conduzem o filme para aquele espaço destinado aos menos interessantes “sessões da tarde”. Mesmo que a elucidada e até idiossincrática aura de cartum seja o prenúncio de um bom passatempo, a obra tropeça nas próprias pernas após o primeiro ato. Paradoxalmente o filme é piadista e ao mesmo tempo tem dificuldades de ri de si próprio. Em suma: Peyton não apenas mergulha nos piores clichês, mas deixa de brincar com as convenções diante de si.

Na mesma entrevista, o realizador disse que “o objetivo genuíno desses filmes é lembrar que, monstros são assustadores, mas filmes de monstros devem ser divertidos”. Há verdades na afirmativa. O gorila albino é o personagem mais engraçado em cena e sua participação provoca boas risadas em distintos momentos. Cabem ao lobo que “voa” e ao crocodilo os papéis de “criaturas maléficas”. Se a presença humana em cena é pífia, os gigantes conferem alguma luz ao escurecido universo fílmico.

Pouca luz para tantos equívocos. Rampage – Destruição Total mescla tons diferentes e a trama é frágil e irregular. Praticamente não há justificativas para a presença de alguns personagens secundários e o quebra pau de gigantes talvez seja o lampejo de inspiração do produto cultural.

Muito se fala em “maldição dos filmes de vide-games”. É racionalmente difícil acreditar em ‘maldições’, afinal a linguagem cinematográfica contempla amplas possibilidades criativas. Aliás, filmes como “Need for Speed”, de Scott Waugh e “Terror em Silent Hill”, de Christophe Gans, são bons exemplares que surgiram do mundo dos jogos.

Brad Peyton, tenta outra vez!

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