Um filme com fatos demais

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2017


A seleção competitiva do Festival de Cannes 2017 exibiu o mais recente filme do diretor polaco Roman Polanski, “Baseado em Fatos Reais“, que se configura como um thriller psicológico de abordagem literária. Seus temas e estruturas cinematográficas acostumaram-se ao simplismo das ideias, talvez motivadas pela limitação geográfica a Europa, visto que sofreu um processo por pedofilia.

Assim, as histórias são recorridas a uma estrutura intimista de sua construção, conduzindo seus espectadores por uma ambiência de suspense, de dentro para fora, que confunde projeção, metalinguagem, realidade, fantasia e esquizofrenia, tudo desencadeado (ora por causa, ora por consequência) em subtramas adjacentes e interligadas, por elipses que distanciam, e ou pela aproximação, motivada pelo querer da afinidade.

“Baseado em Fatos Reais” acontece por intelectualizados e blasés ambientes de feiras literárias, envoltos em uma aura de suspense e de fugas a elementos hipsters como a música eletrônica das festas de comemoração. Há um mistério, um que de “Elle”, de Paul Verhoeven.

Um quebra-cabeça, ainda confuso, que precisa ser montado e revelado, entre tensões sexuais das liberdades naturais de se estar antes com um homem, agora com uma mulher, flertes, colapsos, surtos, estes dois últimos estimulam a viagem ao bucolismo do campo interiorano para resolver o bloqueio do escrever. O longa-metragem personifica e humaniza personagens do próprio livro, pensando, questionando-se e conversando sobre a vida solitária.

Durante o lançamento de seu mais novo livro, a autora Delphine (a atriz Emmanuelle Seigner) conhece Elle (a atriz Eva Green), uma de suas fãs, que lhe pede para autografar seu exemplar. Elle também é escritora, trabalhando como ghost writer em biografias de celebridades. Aos poucos as duas se aproximam, com Elle se tornando cada vez mais presente na vida da autora. Por mais que às vezes se sinta incomodada com a onipresença da nova amiga, Delphine permite a aproximação devido à sua fragilidade emocional, o que logo se revela um erro.

“Baseado em Fatos Reais” é sobre a liberdade do existir. Sobre transcender padrões limitados da sexualidade. Sobre não se importar em expor quereres e desejos, ainda que no metrô. Ao longo da trama, nós espectadores somos convidados a participar da confusão-terapia narrativa de duvidar de tudo e todos e de buscar detalhes (obcecados, espreitados e perseguidores – como a cópia da bota) a fim de solucionar obviedades das nossas percepções.

A perda de um caderno de anotação quer simbolizar outras complexas questões. É a perda de tudo que a personagem construiu. Todas suas memórias. O longa-metragem objetiva criar paralelismos com os estágios mentais da escritora, contudo com as constantes e recorrentes voltas e falsas pistas-dicas, o público é envolvido no clichê do próprio conceito, que se pauta mais pela tautologia do estimulante fascínio da elegância que pela despretensão do sarcasmo coloquial de ser, forçando um pedido cúmplice de relevar o amadorismo transpassado.

Entre cartas anônimas, quebra de liquidificador, ataques nas redes sociais, ansiolíticos, “Baseado em Fatos Reais” sugere um que de “Instinto Selvagem”, também do diretor Paul Verhoeven (talvez uma homenagem de Polanski), pelos manipulados e maniqueístas jogos de confiança para saber quem é a boa e a má, a vulnerável e a ciumenta, a louca e a submissa, a Ruth e quem é a Raquel.

“Baseado em Fatos Reais” brinca com espaços, ruídos sonoros, tempos de dentro e de fora, camisas, dormir e acordar. É a sobre a solidão urbana. É sobre sobreviver sem se danificar. É sobre parecer outra pessoa para poder sumir um pouco da própria. Então, mesmo cabelo, mesma cor, mesmo corte, tudo a insere em uma bagunça ininteligível da autobiografia, e cada vez explicita mais nas ações, como cair da escada. Se a personagem está completamente confusa e fora de tom em segredos e histórias, imagine o público! Ela deixa as coisas acontecerem, assim como nós, que damos corda para conhecer os porquês e o desfecho final, até porque só recebemos subjetividades contadas. E a máxima nos diz que “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

O roteiro pulula tantas questões, que em certo momento nos desligamos da trama. Literalmente. Toma-se uma condução ficção versus fantasia. Imaginação versus dupla personalidade. A perna quebrada limita e gera fragilidades e vulnerabilidades em confissões quase terminais. Tudo é apelado. Tudo é jogado e solto a quem assiste, desencadeando ladeira abaixo apressados gatilhos comuns. Não há não lembrar “Repulsa ao Sexo” e “Bebê de Rosemary”, os filmes passados de Polanski. Com seus sonhos realistas, alucinações, co-dependências retro-alimentadas pelo vício da escrita. E tampouco inferir “Louca Obsessão”, de Rob Reiner; e a “Mulher Solteira Procura”, de Barbet Schroeder.

“Baseado em Fatos Reais”, mesmo com música de Alexander Desplat, soa preguiçoso. Como se o diretor dissesse “Oi, eu sou Roman Polanski e posso fazer qualquer coisa”. Concluindo, um filme que tem cérebro demais e organização de menos.

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