Do comodismo à estrada da simplicidade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Cannes 2017


Exibido no Festival de Cannes 2017, na mostra Un Certain Regard, “A Noiva do Deserto” é um filme sobre recomeços. Sobre libertar as amarras do passado e renovar “acontecimentos tão incomuns”, ainda que acreditando em antigas esperanças, promessas e “obras da Santa”. É um longa-metragem de situações. De acasos. De permitir possibilidades. De se reconstruir. De transmutar crenças-projeções (que “ajudam”) em palpáveis realidades.

É a fantasia do sonho que se torna a própria vida em uma existência orgânica, idiossincrática, limitada, irregular e imperfeita. É transformar complexidades imaginadas em espontâneas simplicidades. É sobre aceitar a “estrada” da “Defuntinha”. É sobre redescobrir a sensação do amar (com a preocupação da própria aparência). É sobre não se cansar de se “estar viajando o tempo todo” e não se cansar de “ficar parada”. É sobre voltar a sorrir.

“A Noiva do Deserto”, das estreantes diretoras argentinas Cecilia AtánValeria Pivato (que trabalharam nos filmes de Juan José Campanella a Hernán Goldfrid, passando por Pablo Trapero), é uma fábula, que se desenvolve pela quebra do dentro para fora. Do interno ao externo. De sentimentos defensivos anestesiados à aventura de colocar em prática impulsivas e passionais emoções.

Teresa (a atriz Paulina Garcia, de “Gloria”, “A Cordilheira”) é uma senhora que, ao longo de vinte anos, trabalhou sempre na mesma casa, como empregada doméstica, ajudando a criar os filhos de uma família endinheirada de Buenos Aires. A trama, neste ponto, nos ambienta pelas sistemáticas e mecânicas micro-ações desta faxineira.

Quando a família decide vender a casa, ela perde o emprego. Chamada para ajudar na preparação de um casamento em uma cidade do interior, ela inicia viagem mas, no caminho, “esquece” a mala dentro do trailer de Gringo (o ator Claudio Rissi), um “insistente” vendedor ambulante. Após reencontrá-lo, eles iniciam uma jornada em busca do “bem perdido” pelas muitas paradas que o vendedor teve anteriormente. Entre intolerância, irritação e explícita agressividade.

“A Noiva do Deserto” quer personificar quereres adormecidos. E é a câmera que nos conduz a esta viagem de transformação. Do conservador e longo plano estático ao ritmo desengonçado (propositalmente) da imagem. Tudo simboliza uma mensagem, até mesmo a cena em que o pássaro bate no parabrisa.

É um filme de gênero de ator, neste caso, de atriz, que acompanha a personagem principal em suas reações, dramas, sutilezas, surtos, reviravoltas, saudosismos (de recuperar a atmosfera do passado), incompatibilidades (de um tempo moderno demais), medos, casas em miniaturas (a filosofia do Minimalismo), fofocas alheias, tempestades simbólicas, defesas, esperas de ônibus e consequências infortunas “à mercê do universo”.

Entender este elemento nostálgico, conflituoso com o presente, é a chave para embarcar na condução inocente-ingênua da história. E até mesmo se tornar cúmplice dos gatilhos comuns apresentados: as ações estabanadas, o passaporte molhado e dos contrastados paralelismos , não lineares, do antes com o agora.

Esta percepção é muito tênue, um delicado limite, porque caso contrário pode soar como um filme de conclusão de um curso de cinema de uma não muito exigente faculdade, por causa da música sentimental demais que intercala lembranças, da obviedade transmitida, das situações engessadas e da perda do passado e o encontro de um futuro.

O espectador precisa continuar a jornada road-movie e não desistir do filme que adentra lugares inóspitos (à moda de “Bagdad Café”, de Percy Adlon), desmascaramento das hipocrisias, a religiosidade humanizada, os egoísmos (“O meu é meu, seu é seu”), os truques do sobreviver como pode, as metáforas de uma chilena na Argentina e o gringo, a tolerância de um menino brincar de boneca, o conhecimento de ser “co-pilota”.

“A Noiva do Deserto” faz com o público infira a “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert; a “Pela Janela”, de Caroline Leone, todas estes por transformar o passado em vida de solidões que se unem, “duas pedras no caminho”, que encontram o “sapato velho para um pé descalço” da sapatilha presenteada. É o começar de novo com novas coisas, com “sorrisos que inundam”, com ações justificadas por amor, com a descoberta do desejo sexual. Teresa tem medo. Prefere estar na zona de conforto do equilibrado e cômodo passado que já conhece e que “deixa água para a Santa”, com a trilha sonora de Leo Sujatovich e seu “céu”.

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