Um Filme Para Ser Lido

Por Fabricio Duque


Exibido no Festival de Locarno 2017, “Severina” traz ao espectador o típico universo dos livreiros: intimista, orgânico, humanizado e característico, uma “espécie aspirante a escritor” que filosofa, com passional “êxtase supremo”, sobre as coisas do mundo coloquial do que está ao redor (as micro-ações, reações comportamentais, sentimentos idiossincráticos, fragilidades defensivas), entre muitos adjetivos e definições pululados.

É sobre o amor. Aquele que se vive nos livros, que busca mais o platonismo mútuo da paixão que o ter propriamente dito. Sendo mais como uma fantasia projetada do querer que a experiência da realidade. É o delírio da retroalimento do sofrimento, que “rima amor com dor” (trecho da música “Mora na Filosofia”, de Caetano Veloso), na completude de sua incapacidade, deslocamento, insegurança, esquecimento e o acordar à “milésima segunda chance”.

A narrativa, dividida em capítulos, nos ambienta em dois planetas cinematográficos: um que infere a Nouvelle Vague francesa de François Truffaut e seu “Beijos Roubados” (e que aqui ainda imprime uma modernidade à moda de outro François, o Ozon) e o outro que elenca a tipicidade cômico naturalista da estrutura dos filmes argentinos (com um que de “Medianeiras: Buenos Aires da Era do Amor Virtual”, de Gustavo Taretto – muito por causa da presença do ator Javier Drolas – harmonizado com Juan José Campanella – e a participação especial de Daniel Hendler).

Dono de livraria, R. (o ator Javier Drolas) se encanta com uma mulher (a atriz Carla Quevedo), a “pequena besta”, que visita sua loja e volta dia após dia para cometer furtos. Inicialmente ele não reage, mas numa das vezes, mais interessado em puxar conversa do que recuperar o prejuízo, ele a encurrala. Ela passa então a pegar livros em outros estabelecimentos, porém ele não está disposto a se libertar da misteriosa obsessão, quase um “fantasma”, “dotada de beleza maculada”.

R. aceita embarcar nesta viagem surreal, que confunde elipses, sonhos e a verdade dos fatos. “Existem tantos tipos de mulher quanto mulheres existem”, cita-se um trecho de clássicas obras que incluem a literatura que vai de Jorge Luis Borges a Vladimir Nabokov (em “Ada”), passando por “Mil e Uma Noites” em uma tradução francesa.

“Severina”, dirigido pelo brasileiro Felipe Hirsch (de “A Menina Sem Qualidades” – que também tem Javier Drolas no elenco; “Insolação”, que co-dirige com Daniela Thomas) é um filme de fora para dentro. É o externo que se internaliza. Primeiro fornece os detalhes para depois os aprofundá-los na trama, que ganha contornos de um irreal e psicológico thriller noir; de ingenuidade possível de uma “Menina Que Roubava Livros”. É muito mais que um simples gênero de romance, em que um homem se apaixona à primeira vista por uma mulher.

Muito mais. É um retrato alegórico de um mundo apressado em digitalizar suas obras (criando a possibilidade infinita de se manter uma biblioteca completa na palma da próxima mão com práticos instrumentos de leitura), que perder sua nostalgia e saudosismo. É conservar a essência do salvar cópias raras para si, como colecionadores individualistas.

“Severina” é sobre a máxima de que a “livraria é um estímulo de ideias”. Que seus livreiros são “como alquimistas”, presos em tempo passado e pausado. Que alimenta o conhecimento; que conecta o eu mais profundo e primitivo; e que permite viajar por palavras e por “óbvios aforismos” ao “pessoal” de cada um. Entre conversas livres, saraus, leitura de poesias, nós somos conduzidos a uma espontânea estética artística, tudo com teores e humores subjetivos. Por exemplo, o paralelismo com Ray Bradbury e seu “Fahrenheit 451” (que virou filme por François Truffaut). Sim, quase todas as pistas e referências são calculadas e estudadas a fim de criar uma homenagem à cinefilia, a Hector Babenco, a Hermeto Pascoal, a João Gilberto.

Repentinamente, a história acontece entre eles. Com sugestivas revistas de segurança que criam um paralelo ao desejo sexual, o foco querer transforma-se no agir. No concretizar o ato, potencializado por uma câmera na mão que tem como objetivo estreitar o limite da intimidade. Para depois buscar o conflito temporal do retorno (que “a vida é uma merda”) a novas “coisas que acontecem” ao se “esperar pelo inverno” para “brigar” contra o “pai noivo” e a instabilidade de Ana-Severina. E finalizar com “corpos enterrados” na chuva. Um clichê? Sim. Proposital? Temos quase certeza absoluta.

“Severina” é sobre viver “decente” com e pelos livros, como o último dos românticos. É estar presente na “Divina Comédia”, de Dante, passando pelo inferno, purgatório, paraíso, entre metáforas de relacionamentos em técnicas de “limpeza”. É experimentado o novo, o diferente, o surto, o sexo como pagamento de apaixonados favores. É também sentida a compreensão de que livros são mais importantes que pessoas, a coma alheia como possibilidade da felicidade, as memórias. É um filme sobre o maior amor cíclico de um ser humano: representar nas próprias vidas reais as ficções das histórias lidas.

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