O Rio de Janeiro da guerra

Por Bruno Mendes


“PM é igual criança, longe dá saudade, perto incomoda”. Esta frase dita por um policial veterano e linha dura talvez sintetize de maneira adequada ao que a polícia militar do Rio de Janeiro representa para parte considerável sociedade carioca.O documentário “Rio do Medo” (dirigido e roteirizado por Ernesto Rodrigues, eco-produzido pela Globo Filmes e Globo News) aborda o trabalho da polícia do Rio de Janeiro convida (e em algum sentido provoca com algum nível de coercitividade) esta sociedade a refletir sobre a importância do trabalho e as constantes dificuldades destes homens e mulheres que arriscam a vida todos os dias.

O documentário é construído a partir de entrevistas de especialistas que trabalham em diferentes setores e com distintos graus de experiência no trabalho na PM: psicólogo, médico, comandante de UPP – Unidade de Polícia Pacificadora, novatos, coronéis etc. Há diferentes vozes, hora o outra há discordâncias, mas “Rio do Medo” não tem a ambição de expor fundamentações histórico-sociológicas sobre as raízes da violência urbana. Sem meio termo, é um microfone aberto aos policiais, funcionando quase como uma espécie de desabafo para este grupo social cujos resultados das ações não são sempre aceitos.

A opção de apresentar unicamente a perspectiva policial é legitima e confere acertos ao retratar com honestidade a dura realidade de quem precisa subir o morro e entrar em confronto com bandidos armados com fuzis. O relato é claro: o treinamento é para ser combatente. Fica fácil entender as razões pelas quais os chamados “rituais de iniciação” são imprescindíveis para batizar os novatos.

Em determinada passagem, um dos entrevistados, o ex comandante do Batalhão de Operações Especiais Paulo Storani, afirma que o ‘tapa na cara’ durante a rotina de exercícios é uma prática comum. Segundo ele, no final do exercício isso se torna até uma maneira de cumprimento.

É assustador – a partir do prisma deste sujeito sem microscópica relação/entendimento pessoal/afinco com qualquer tipo de violência física – assistir a um homem inteligente associar ato de violência a um cumprimento de colega. Por outro lado, as bem filmadas cenas reais de conflito deixam claro que a incorporação física e emocional do ethos da violência é necessária e torna-se quase um escudo no contexto bélico que aterroriza a segunda maior cidade do Brasil por trocentos anos.

A reflexão “a polícia não existe para estabelecer o paraíso, mas para evitar que o inferno se instale” é moralmente incômoda, mas ratifica as contradições de uma corporação imperfeita e em ampla medida, o espelho do contexto urbano caótico que perdura por décadas ou centenas de anos.

“Rio do Medo” não traz novidades sobre o tema e é conservador em sua concepção, funcionando quase que como reportagem longa, daquelas com pretensão de angariar troféu nessas premiações de jornalismo que ocorrem mundo afora. Ainda assim, o relato nu e cru de policiais causa impacto e coloca sal na ferida social que ignoramos, porém sabemos existir.

Apesar da agressividade reinante e o discurso previsível dos militares, o ex-comandante geral da PM Íbis Pereira (ao meu ver o especialista mais lúcido e atento às questões complexas de toda a gama de problemas) apresenta reflexão pontual sobre os aplausos da sociedade nas cenas de tortura do primeiro “Tropa de Elite” (dirigido por José Padilha) e o ‘desumano’ interesse dos fãs da obra pelo BOPE.

Por outro lado, se há vários pontos interessantes para refletir sobre a brutalidade policial diária, o “tomar partido” da obra traz problemas sérios. São injustificáveis a tímida atenção dada ao “caso Amarildo”, e a ausência de interesse jornalístico por demais ocorrências de violência policial e ocultações de cadáver, práticas que infelizmente acontecem nestes anos e remontam tempos não democráticos. Mesmo que a parcialidade seja, repito, legitima, por que não colocar os “donos da voz” contra a parede?

Por fim, “Rio do Medo” nada mais é que uma generosa lente de aumento em cânceres sociais que afligem o sujeito do Leblon,Barra, Lagoa e MUITO mais o jovem e negro que mora em comunidades pobres.

Ernesto Rodriguez traz uma reportagem de Jornal Nacional grande e com quê a mais de profundidade sobre o Rio das UPPs falidas e dos consecutivos (des)governos. A polícia é máquina de matar. Pobre morre mais. Todos sofrem!

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