Um filme que precisa lembrar para não queimar

Por Fabricio Duque


Certos filmes, devido suas camadas psico-metafóricas, precisam de um tempo maior de digestão. Assim, nós, o público, remoemos incessantemente o “alimento” recebido. Alguns até sonham. “Uma Temporada na França” é um deles. Um “prato cheio” que pulula questões político-sociais. É muito mais que apenas uma melosa história de amor. Os espectadores precisam ler “nas entrelinhas” para imergir no maior problema atual da Europa: os refugidos que solicitam asilos nos novos países após fugirem das guerras de suas terras natais.

Em um dos diálogos do filme, um pai, após sofrer com pesadelos e visões (projeções do querer à moda do universo de M. Night Shyamalan e ao som de africanas músicas de ninar), um “truque” da mente, devido sua saudade latente que ainda vive, responde com “Nunca voltam” a pergunta da filha: “Os mortos voltam algum dia?”. Não conformada, rebate: “Mas já me disseram que os mortos sempre estão por perto”. Isto pode ser um explícito indicativo do real e verdadeiro objetivo do diretor Mahamat-Saleh Haroun (de “Um Homem Que Grita”, “Grigris”), da República do Chade, que integra o continente africano.

“Uma Temporada na França” aborda a sobrevivência. O lidar e transpassar dificuldades, necessidades e suas soluções engessadas pelo governo. É sofrer a perda e sentir o luto, com esperança por causa dos filhos (deixados sozinhos para que o pai trabalhe) e resiliência de sempre seguir adiante. E mitigar ao máximo a raiva limítrofe do “copo transbordado”. Nosso personagem principal precisou deixar seu emprego de professor de francês para “esperar” viver na França, trabalhando em uma feira e ou como faxineiro.

Esta espera é sua “temporada”, brigando na justiça para que possa ser um cidadão definitivo. Não é fácil a vida de um refugiado: a saída do país de origem, a adaptação em um novo, as moradias “provisórias”, a constância da troca de espaços (“mudar de novo” após o morar “emprestado”), os olhares julgadores de que eles não pertencem àquele lugar, tudo ou faz desistir ou buscar força no impossível para continuar.

Abbas (o ator Eriq Ebouaney), um professor africano do ensino médio, tomou a difícil decisão de deixar seu país e sua cidade Bangui (capital da República Centro-Africana) para ficar longe da guerra civil que assolava a África Central. Junto com seus dois filhos, partiu para a França buscando um recomeço e lá pediu asilo político. Depois de dois anos de espera, o pedido foi rejeitado pelo governo. Agora, prestes a ser expulso do país, ele precisa lutar com todas as suas forças por seus direitos.

“Uma Temporada na França” cadencia sua narrativa por elipses, por instantes, alguns mais desenvolvidos, outros mais esquecidos. É o filho que narra a história, com suas imaturas percepções limitadas de crescimento antes do tempo (de uma criança ter que ser um adulto – que antes reclamava do omelete, e depois aceita a condição do que tem), sobre seu pai, que também é mãe e amigo. Eles não “são como os outros”. Tampouco o peixe que entra urgente na vida deles.

O longa-metragem ambienta o conceito, em um tom de limite tênue do teatro sentimental versus a espontânea realidade. Esta união dá trabalho, porque tudo precisa ser dosado e nivelado, mas também não pode ser tão cuidado para deixar um que de proposital organicidade amadora. Até mesmo para mudar o foco de seu personagem: o irmão que passa por “impotentes” crises existenciais, que também luta por um lugar na sociedade, por ser inserido, por conseguir uma “esmola” dos que andam em seu redor.

É um filme que se constrói pela presença do tempo de dentro: melancólico, nostálgico (como o mamão), depressivo e silencioso, que respeita as variadas e possíveis formas de sofrer e superar a “esposa morta”. Nós espectadores sentimos mais um que de atmosfera portuguesa que francesa, inferindo assim um misto que vai do universo do escritor moçambicano Mia Couto com “Cavalo Dinheiro” de Pedro Costa. Há um torpor, uma genuína agressividade característica de todo e qualquer ser humano, a defesa cruel de uma criança.

Tudo em “Uma Temporada na França” é importante. E enxerga a ficção como uma forma de encontrar a realidade nas encenadas ações, gentilezas (sociais e ou humanizadas), detalhes, reações (a raiva óbvia de um, o canto chinês de outra) e nas interpretações de seus coadjuvantes e na passagem de seus extras. É um “pandemônio” mundo de imigrantes, de várias nacionalidades e hierarquizados poderes, que esperam a “nota final de uma escola para crescer de nível”. Todos buscam vidas normais (de manter a mais simples das felicidades) para colocar em prática velhos e novos sonhos com a tranquilidade do jazz, dos jogos de Paris San Germain (sem Neymar, com Zlatan Ibrahimović – do Los Angeles Galaxy) e das danças comemorativas de um aniversário com “bolo polonês” e com panorâmica câmera estática.

Entre limites perdidos, ilegalidades, xenofobia disfarçada (ou explícita na parede uma rua “Fora Imigrantes”), cantos, livros (“A Promessa”, escolhida por uma esperançosa criança imigrante e negra) e uma França quase deserta, um simbolismo apocalíptico de uma Europa que já morreu (e de uma África que é uma “ficção”), o filme quer ensinar a virtude da dignidade, da quebra do orgulho defensivo de vidas efêmeras, de que não é preciso ações radicais e fatalistas contra a burocracia, de não repetir mais o ano de 1938, de excluir totalmente desesperos, e de não causar queda livres.

E de sempre ser representada por uma “borboleta”, de todas as cores, em um jazigo do “Jardim da Fraternidade”. “Na França, os mortos são queimados. Na nossa terra, enterramos”, esta frase diz e resume um terminal comportamento político-social. Como já foi dito, “Uma Temporada na França” é muito mais complexo. Perdas, amores abandonados por causa de “apelações indeferidas”, tudo é um sintoma. Uma síndrome que se alastra. Violências e, também descasos, são retro-alimentadas. É um filme que não queima e não enterra, mas sim lembra, luta e grita.

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