Um filme de Krasinsk

Por Bruno Mendes


Passos cuidadosos são dados por uma rua vazia e no interior de um mercado abandonado, ainda com produtos aparentemente velhos espalhados pelo chão e nas prateleiras. A família faz silêncio absoluto, todos estão descalços. As Expressões de pavor já indicam a relação dos personagens de Um lugar Silencioso (dirigido por John Krasinsk) com um perigo habitual e iminente. Caso você não tenha lido a sinopse, ficará fácil perceber que as figuras humanas daquele universo fílmico não podem fazer barulho, senão ‘algo acontece’. Evidentemente o maior desafio do diretor é conduzir a narrativa com ínfimas utilizações do principal recurso argumentativo do gênero humano dentro ou fora da quarta parede: a fala. Saudemos: objetivo cumprido!

Graças à sábia utilização do som – e a falta dele – e ao fino trato com a construção dos personagens, o filme estabelece competente atmosfera de apreensão e medo e em alguma medida é sugestivo como todo bom suspense/terror deveria ser. Criativo ao driblar muitas convenções do gênero, “Um Lugar Silencioso” é um trabalho pessoal do pouco experiente diretor, comumente associado aos seus papéis cômicos em filmes como O Noivo da minha melhor amiga e O Amor não tem regras. Além de comandar os takes, John Krasinsk escreve o roteiro em parceria com Brian Woods e Scott Beck e também interpreta com dedicação um personagem sofrido.

A história é simples: um casal unido e bem apaixonado vividos por Krasinsk e a sua esposa na vida real Emily Blunt não moram em casas típicas do subúrbio americano ou em apartamento situado em via repleta de outras moradas, mas em uma fazenda distante e equipada contra as dificuldades. Cerca de 10 minutos após início do filme – é claro que ninguém conseguirá deixar de emitir ruído, ou fazer com que algum objeto o faça – entendemos que uma criatura mortal e rápida é atraída por sonoridades.

Ainda que a trilha sonora seja por vezes invasiva e prejudique a imersão em situações inquietantes por si só, tal defeito não conduz a obra. O filme acerta ao jamais configurar-se como um suspense isolado, cortado basicamente por susto verdadeiros ou aqueles “pegadinhas”, por não fazer do derramamento de sangue um fetiche e principalmente não abusar de figuras humanas desinteressantes ou pouco críveis na concepção lógica fora do universo fílmico. Tais ganchos banais ou soluções visualmente não inspiradas infelizmente são frequentes nesta linha de entretenimento, mas Um Lugar Silencioso foge desta lógica com primor.

Sem gore, ou mesmices pretensamente aterradoras, o drama familiar/verdadeiro está entrelaçado ao horror/ficção e esta harmonia é a principal força da obra. Por razões óbvias, são quase nulas as palavras doces trocadas entre pais e filhos e a tensão constante não permite gestos espontâneos e familiares de carinho, contudo, o cuidado do patriarca com a esposa, e vice-versa e a exposição do zelo dos progenitores com as crias não deixa de ser comovente.

E se Krasinsk é hábil ao dar vida a um pai de família carinhoso e emocionalmente massacrado pelo trauma de acontecimento ocorrido no passado, Blunt conclui com impactante vivacidade algumas das sequências mais tensas da obra e expressiva sem overacting.

Os adultos dão conta do recado, porém quem mais brilha em cena é a atriz mirim, e deficiente auditiva, Millicent Simmonds. Suas expressões não verbalizadas de tristeza, alegria, medo, aflição e até suas atitudes de certo enfrentamento são poderosas e dão luz à compreensão sobre a dinâmica daquela família em meio ao caos instaurado. É até irônico essa reflexão, mas em algum sentido Um lugar Silencioso não deixa de ser um filme sobre “não ditos”, menos em razão da ameaça do monstro e mais por traumas e experiências vividas. A dor machuca e cala.

Há sustos corretos no filme, certas passagens dispensáveis (a batidíssima parte da “mão suja de sangue no vidro”) e a mencionada falta de sutileza no emprego da trilha hora aqui, hora ali. De todo modo, é perceptível que este exemplar foi concebido e executado com zelo, personalidade e aquela dosagem de apuro artístico carente em produções que apostam na manutenção de fórmulas.

É ótimo perceber que a obra que em algumas partes remete ao excelente Sinais de M Night Shyamalan tem dono.

Michael Bay – ele mesmo, o sujeito daqueles blockbusters tão explosivos quanto esquecíveis – é um dos produtores. Imagino que, para o bem de todos, John Krasinsk gritou mais alto: esse filme é meu!

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