Uma animação das cavernas

Por Fabricio Duque


O diretor britânico Nick Park abraçou características típicas de suas obras anteriores “Wallace & Gromit” e “A Fuga das Galinhas”, estas influenciadas pelo humor pastelão, espirituoso, orgânico e idiossincrático de “Monty Python” para construir sua mais recente animação, “O Homem das Cavernas”, que por sua vez faz com que o espectador referencie a “Os Croods”, de Chris Sanders e Kirk DeMicco, pela semelhança da ambiência histórica, e lembrando a “Um Time Show de Bola”, de Juan José Campanella, pela vertente da temática do futebol.

“O Homem das Cavernas” conduz-se por uma narrativa despretensiosa de comédia de situações pululada de desventuras de erros, intercalando espontaneidade realista com tom lúdico; metáfora com inocência; ingenuidade com perspicácia. É uma fábula hieroglífica sobre a criação do futebol pelos “early men”, homens da caverna que por um acaso inventaram um dos maiores esportes do mundo moderno.

A animação não deixa de apontar suavizadas críticas a questões sócio-políticas, como a exploração de povos “esquecidos” em suas culturas e limitados conhecimentos; como a arte futebolística transformada em um caro entretenimento dominado, organizado e estruturado por um “empresário de negócios”, que presta “saudações” a Rainha justa e ética (é explicito observar a referência à monarquia inglesa – até porque seu diretor-animador é um ferrenho inglês de Preston, a 50ª cidade da Inglaterra.

“O Homem das Cavernas” é também um retrato auto-ajuda, sobre a força da necessidade de se superar e da luta em sobreviver a fim de proteger o espaço moradia. No tempo em que dinossauros e mamutes ainda corriam livremente pela Terra, Doug, um corajoso homem das cavernas, une sua tribo contra um inimigo poderoso da Idade do Bronze, que os expulsa do perfeito Vale em que vivem. Buscando vencê-lo para recuperar o lar, ele propõe uma ousada batalha entre quatro linhas: um inédito jogo de futebol!

Assim, Doug aprende e invoca mentalmente seus ancestrais atletas, que, mesmo sem vitórias, guardavam o dom, a desenvoltura, a “ginga”, a diversão e a transposição de obstáculos. Um dos direcionamentos do filme é que o futebol vem de dentro para fora. Que a paixão e a crença do acreditar que se pode melhorar vencem a técnica arrogante, vaidosa e imponente de jogadores experientes e muito bem pagos para exercer em tempo integral a representação midiática de astros “deuses” (com seus cabelos sedosos e esvoaçantes em suas paradas-close em câmeras lentas).

O futebol é praticamente o monólito de “2001 – Uma Odisseia no Espaço”, de Stanley Kubrick. Seus iniciantes jogadores transbordam e transcendem a garra dentro de cada um. A máxima popular diz que “a ocasião faz o ladrão”. E neste caso, exímios atletas que experimentam surreais maestrias para provar que corajosos o suficiente. E protegerem o Vale nosso de cada dia. Se antes caçavam cúmplices coelhos, agora o desafio era outro: jogar e conhecer o universo ao redor.

“O Homem das Cavernas” faz com que o espectador vá um pouco mais fundo, enxergando no “ditador empresário” um catequizador, que por ganância invade para estender seu poderio. É também sobre a tolerância de entender as limitações e tempos de aprendizado dos outros próximos. É uma jornada, que ilumina o escuro. Que “incentiva”, por “estímulo” alheio, o acordar, o sair da caverna. É uma tradução animada de Platão. De galgar dificuldades, escalar muros e salvar o que se ama. E o novo acostumado.

Após esta radical e de choque experiência de vida, este povo das cavernas e os do outro lado, cidadãos à moda dos torneios romanos que pagam para ver o “circo pegar fogo” e ver o “ensinado” time de futebol vencer. Contudo, seu diretor opta pela estagnação em uma convencional zona de conforto. Inserindo características padronizadas, em fórmulas sistemáticas de construção. Não é um filme ruim, mas é comum. Quase banal. Esta escolha causa fragilidades, mas não destrói o conceito-contexto. Continua divertido. Poderia ser mais? Sim, sempre pode. Desta vez uma boa obra, com bons momentos, com boas risadas soltas. É um pouco mais paleolítico, e menos moderninho.

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