A novela de uma família

Por Fabricio Duque


Exibido na mostra Panorama do Festival de Berlim 2017, o húngaro “1945″ é sobre passados que não se reconciliam com o presente e que se resignam com seus imperdoáveis hiatos: a convivência com violência, a aceitação submissa dos desmandos do “Secretário Tabelião”, dono do vilarejo, o medo receoso da vingança, os segredos guardados (mas conhecidos e compactados por todos), e a imposição corajosa de atravessar animosidades para cumprir e honrar uma tradição.

“1945”, dirigido por Ferenc Török (de “Isztambul”), opta pela fotografia preto-e-branco como uma tentativa de neutralizar o tempo (que contempla micro-ações), de estreitar épocas (em cortes rápidos de elipses continuadas), de libertar a própria ambiência, de trazer o antes com o intuito de representar o agora, e de abraçar a estética cinematográfica das obras de Bela Tarr, um realizador também húngaro (de “Cavalo de Turim”, conhecido pelo poético visual teatral de conduzir personagens em imagens e imagens em personagens).

Esta escolha, acertada, fornece a única plasticidade qualitativa da trama, visto que, narrativamente, o roteiro, assim como sua direção, sofrem em apresentar latentes e pululantes fragilidades enraizadas, que se desenvolvem no estereotipo, caricatura e na ingênua crença de transpassar seriedade. “O mundo dos russos não é para os húngaros”, diz-se com um que de “O Poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, acoplado ao universo de Federico Fellini. “Um novo mundo”, rebate-se.

Em agosto de 1945, uma pequena aldeia húngara se prepara para o casamento do filho de um importante secretário da cidade. Mas um acontecimento estranho os apavora repentinamente: um grupo de judeus ortodoxos chegou na estação ferroviária da cidade portando caixas misteriosas. O medo deles é que tudo aquilo faça parte de algum plano de vingança, pelos atos cometidos na Segunda Guerra Mundial.

“1945” quer ser muito mais um romanceado conto intimista de uma família em um vilarejo esquecido no tempo e no espaço (mas com a resiliência de seus moradores em deixar a chama acesa) que um documento político sobre a guerra que enfrentam, ainda que sejam desferidas farpas (mais pela concorrência dos negócios e do desconfiado orgulho que por xenofobia) e inserções de um “veterano bem-vindo” que lutou em “duas guerras” e pelo rádio que verbaliza os “problemas políticos atuais” e seus rebeldes partidos.

O longa-metragem comporta-se como uma novela de instantes cenográficos e núcleos conflituosos, com suas palatáveis, óbvias, anti-naturalistas e superficiais interpretações, forçadas, mecânicas, robóticas e em zonas confortáveis de uma fórmula padronizada. Tenta-se propositalmente um espontâneo e orgânico tom amador, mas seu resultado é nivelado no caseiro, como nas filmagens de Ed Wood, em que a excessiva e paralisante passionalidade ditava o caminho e a noção do sempre bom. É desengonçado.

Entre traições, machismos, poder patriarcal, histerias, hesitações, confissões, pressentimentos, homens “cheios de si”, noiva “interesseira”, o champanhe (que “para um camponês seria um desperdício”), o filho mimado e fracassado, tudo se constrói por uma estranha mise-en-scène de efeitos, com seus gatilhos comuns e imperativos clichês dominantes.

“1945” deseja mostrar na essência a hipocrisia dos indivíduos sociais, que só pensam em si e no medo de perder seus bens. É sobre a hostilidade, anestesia, crueldade, sadismo, egoísmo, moralidade, sobrevivência, falta de caracter e ética dos seres humanos que aprenderam a viver deste jeito neste mundo sempre catalisado em um grande esgoto cinzento e a se acostumar com a vizinhança que não muda e nunca se transforma ao bem.

Contudo, a metáfora de uma humanidade em frangalhos, o simbolismo da paranoia da culpa, a fotografia que pausa o tempo e o espaço, a redenção-perdão, tudo não suaviza as frágeis rachaduras de sua criação, que pede “louvando a Deus” que o público seja condescendente, amigo e cúmplice das decisões tomadas. Nós relevamos. E perdoamos. Vencedor do prêmio de público na mostra Panorama do Festival de Berlim 2017, e no Festival de Jerusalém com o Prêmio Yad Vashem, que é concedido para filmes relacionados ao Holocausto. O ator Péter Rudolf (personagem de Szentes István, que engordou quinze quilos para o papel) ganhou o Prêmio de Melhor Ator no Hungarian Film Awards. “1945” também recebeu o Prêmio de Melhor Trilha Sonora (Tibor Szemzö).

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