A distopia nossa de cada dia

Por Chris Raphael


Como um simples pepino pode ser tāo mais inteligente que qualquer outra criatura do multiverso? E após uma breve incursão pelo bairro, o tal pepino utiliza-se de pedaços de insetos e partes de pequenos roedores dos esgotos da cidade, e tem a inspiração que o leva a criar e controlar um exoesqueleto, otimizado especialmente para uma guerra particular (da qual sai vencedor), e continua perseverante na jornada para alcançar sua família em uma terapia de grupo, onde além de analisar e criticar as conturbadas relações familiares, precisa pegar o antídoto para voltar “ao normal”. Nāo entendeu? É simples.

Trata-se de um episódio da animaçāo “Rick and Morty”. Criada por Justin Roiland e Dan Harmon para o bloco de programação noturno Adult Swim, exibido no canal Cartoon Network, a série animada, que mistura comédia e ficção-científica, estreou em dois de dezembro de 2013 e se originou de uma paródia, também animação em curta-metragem, do filme “De Volta Para o Futuro” (de Robert Zemeckis), criada por Roiland para o festival de cinema Channel 101.

O Adult Swim abordou Harmon a respeito de ideias para um programa de televisão, então junto com Roiland, o desenvolveu com base no curta, substituindo os personagens de Doc por Rick e Marty por Morty. Desde então a série atrai uma legião de fãs, sendo indicada ao Annie Awards em 2015 (o “Oscar da Animação”), e saindo vencedora em 2018. No mesmo ano, também foi premiada com no Critic´s Choice Awards na categoria de Melhor Série Animada Para Televisão.

O personagem Rick é um cientista brilhante, o homem mais inteligente deste e de outros universos, um verdadeiro gênio, mas escapa da tangente do politicamente correto ao encarnar um alcoólatra. Ele vive com sua pacata família, sendo um péssimo exemplo a ser seguido. É a representação figurativa do “porra-loka”. Em contrapartida, por meio de suas invenções fantásticas, consegue transitar e interagir em múltiplas realidades, arrastando o neto Morty, um adolescente de quatorze anos, em suas aventuras e desventuras, evocando a simpatia e amizade de seres alienígenas, o que nem sempre é despertado com o restante da família. As iniquidades do dia-a-dia são tratadas de forma despretensiosa e aparentemente sem maldade. A perspectiva existencialista adotada na série é permeada também pelo “niilismo e determinismo”, estes evidenciados no comportamento de Rick e nas falas dos outros personagens.

A animação nos conduz por um fio tênue que separa a diversāo da depressão. São situações inusitadas, angustiantes e, muitas das vezes, amorais. O personagem Rick é o anti-herói que reside no canto escuro e perverso de cada um de nós. Sua arrogância, sua falta de humildade e seu pouco caso com a vida (própria ou alheia), todas estas características expostas num ambiente controverso.

A explicação é subjetiva: ele sabe que existem muitas cópias de si mesmo e dos outros, em tantas versões de sua(s) existência(s), isso torna claramente justificada toda atitude prepotente. Ansiedades são tratadas como eventos passageiros e nenhuma vontade que não sua própria é levada em consideração. Em esporádicos momentos de lucidez, a fala verborrágica de Rick induz os fãs a devaneios psicodélicos e teatrais, através do qual nós somos testados no limite de nossos limites. Referências ao mundo moderno e sugestões anti-religiosas ocupam as telas todo o tempo, mesclando elementos de cultura pop e personagens icônicos do mundo cinematográfico contemporâneo.

Neste sentido desenrola-se o novelo de situações potencialmente cômicas e/ou desastrosas, dependendo do humor ácido, cruel, sádico, ora ingênuo e inocente dos personagens principais. Aqui nós notamos um padrão: a graça está na genuína distorção mundana. Rick não tem medo de dizer o que pensa e vai agindo de acordo com sua natureza insólita. Assim, nossos sentidos são ampliados e nossas mentes, abertas, tudo para captar mais naturalidade-espontaneidade no inexistente traquejo social.

“Rick and Morty” defenestra a máscara da hipocrisia socialmente aceita. Nossas idiossincrasias estão ali desnudadas, em um vislumbre patético e pouco poético. Os gatilhos comuns presentes nas mazelas cotidianas vividas pelos personagens produzem alívios cômicos, que faz com que continuemos assistindo um episódio após outro. O fato é que esta animação nos invade e, sem muito questionar, sucumbimos ao objetivado e necessário desconforto de cada episódio. É intimidante. É inoportuno. Não devemos gostar de “Rick and Morty”. Mas nós amamos!

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