A procura pelo binário ainda que na diferença

Por Fabricio Duque


O mundo experimenta hoje uma urgente necessidade de promover auto-afirmação das possibilidades de ser e existir. Cada um é tangenciado a vivenciar plenamente a própria essência, expondo sem culpas suas mais genuínas características, e estimulando as individualidades, que agora renascem com força total.

Não há mais espaço à intolerância (ainda que por não perceptíveis adjetivos ofensivos). As diferenças encontram voz, clã, visibilidade e a inclusão social, inclusive de típicos produtos consumidos em um politicamente correto e sensível, que potencializam nossas vontades (nos apresentando desejos que não sabíamos que pertencia a nossas consciências).

“Com Amor, Simon”, dirigido por Greg Berlanti (de “Juntos Pelo Acaso” e um dos roteiristas do episódio um da quarta temporada de “Dawson’s Creek”, além de “Supergirl” e “Arrow), segue exatamente por esta vertente. Por uma atmosfera juvenil, que busca a inocência dos sentimentos, a ingenuidade das ações, a timidez das reações e a impulsividade do agir, o filme, que é uma adaptação – livremente inspirada no livro ‘Simon vs. A Agenda Homo Sapiens’, da autora Becky Albertalli, conduz o espectador à nostalgia da pureza de um passado que acreditava na incondicionalidade do amar e no platonismo da paixão.

Aos 17 anos, Simon Spier (o ator Nick Robinson, de “Jurassic World – O Mundo dos Dinossauros”) aparentemente leva uma vida comum, mas sofre por esconder um grande segredo: nunca revelou ser gay para sua família e amigos. E tudo fica mais complicado quando ele se apaixona por um dos colegas de escola, anônimo, com quem troca confidências diariamente via internet.

A narrativa aspira afinidade com a estrutura do seriado “Os Treze Porquês”, por ambientar adolescentes em existências duvidosas, tendo que tomar conturbadas escolhas definitivas, para que assim, acalmar e tranquilizar a ainda imatura jornada da vida.

“Com Amor, Simon” é sobre a ideologia de gênero. Tenta-se transcender a forma binária e libertar a padronização de uma heteronormatividade que limita e marginaliza outras formas comportamentais. O filme é um estudo de caso que objetiva desmistificar estereótipos, lidando, listando, analisando e traçando características, indícios, pistas, reações, emoções e inferências do parecer ou não gay.

É tudo sobre Simon. Que narra a própria história com o esperado subjetivismo de quem conta sobre si mesmo: um jovem comum em uma família comum com amigos comuns em comuns “noites da televisão”. Filho de pai jogador e mãe oradora, populares no colégio. Irmão “cobaia” de uma iniciante chef de cozinha. E que fornece carona após ter sido presenteado com um carro. Ele é “igual a você”. E tem um “segredo”.

O roteiro, envolto em uma ágil edição (que traduz a verborragia na solidão, o imediatista cerebral ininterrupto e a timidez silenciosa em público) tenta também o modelo Awkward com seus “micos” constrangedores, desengonçados e potencialmente dramáticos e de “fins” irretocáveis. É o tão famoso exagero que reina nas mentes e corações destes jovens. Aqui é uma pop comédia romântica que tem como propósito transformar o protagonista (e todos a seu redor) com a “regra do sem sonhos antes do café”.

“Com Amor, Simon” busca também chegar mais próximo deles com simplistas referências de suas culturas e seus conhecimentos de mundo, como por exemplo, “Freud com Cristiano Ronaldo”. E ou as “safadas bichas Pokemon”. E ou assistir “The Bachelor”. E ou os filhos “reprimidos” que se incomodam com o affair dos pais. E ou o diretor da escola que intercepta celulares das mãos dos alunos. “Há um mundo todo para olhar”, diz-se.

Contudo, quanto mais o longa-metragem é desenvolvido, mais percebemos um latente preconceito hipócrita enraizado. As piadas homofóbicas com “frutinhas”, com o pai “chorão” com Jon Snow (personagem do seriado “Game of Thrones”), com Daniel Radcliffe (da saga “Harry Potter”) e com o musical “Os Miseráveis”, e até com “Bill Cosby, quando era cool”, tudo é nivelado por um politicamente correto cliché que não sai de uma preguiçosa e estereotipada zona de conforto (quando “some” com o negro por causa da possibilidade de um branco aparecer).

O tom é mascarado com um palatável que fofo, de bobinha ingenuidade, para abrigar, no fundo, o “monstro” que não pode mostrar as “mangas” e não expor mais o racismo, sexismo, a misógina e a enrustida homofobia, esta última que se exemplifica na auto-proteção do diretor de escola, que deixa bem claro que a mais remota comparação a um gay é impensável. É o famoso “Não tenho nada contra, mas eu não sou e nunca serei”.

“Com Amor, Simon” é sobre a “pressa” de Simon de transpassar esta torturante questão para o novo conforto (não conflituoso e não mais confrontado) da resignado lobotomia da obrigação de se viver um final feliz. No filme, uma comédia acaso-desventura de situações que saem do privado e ganham o “mundo”, todos podem viver uma “mentira dentro de um armário”. Encenando ou não “Cabaret” na peça da escola. E ou a festa da fantasia. “Um gay, tudo bem. Dois é crime de ódio”, diz-se.

A trama acontece. Deixa previsíveis e descuidadas pistas gerando chantagens. “O outro não está pronto para mudar o mundo”. Aqui é tudo muito afetado. Tudo muito teatral. Tudo encenado demais até mesmo em seus alívios cômicos, que mais parecem fórmulas de bolo de preparação ultra rápida.

Simon tenta encontrar aquele que troca anônimas mensagens de email. E vai tentando descobrir quem é o “príncipe encantado”. Entre projeções e “contrários” números musicais do seriado “Glee” com o filme francês “Minha Vida em Cor-de_rosa”, de Alain Berliner, ele lida com o sentimento de sufocamento, insinuações, olhares “tortos” e julgadores, prisão e medo de se assumir “porque heterossexual é o padrão”, conciliando camaradagem, “ser cupido” e mostrar o caminho” com “biscoito Oreo de laranja”. “Mudar é exaustivo”, diz-se sem nudez, palavrões, palavrões e sexo.

“Com Amor, Simon” tenta a redenção das “piadas estúpidas” (“Grindr, o Facebook dos gays”) à tolerância pelas dificuldades encontradas, pelo “desmoronamento” da vida e pelo discurso final, de efeito e “permanente”. Concluindo, um filme “Sessão da Tarde” que busca uma editada espontaneidade e uma ficcional naturalidade, mas encontra um sistema cinematográfico robotizado (quase binário) de intercalar regras para um óbvio desfeito aceitável.

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