Uma viagem oitentista ao futuro

Por Bruno Mendes


Este é um texto apaixonado sobre um filme capaz de ativar a emoção, a passionalidade e os aspectos mais inebriantes da experiência subjetiva na sala escura. Duas palavras para “O Jogador Nº 1”: imersão completa.

O Steven Spielberg deste exemplar conduz o espectador ao seu universo diegético sem igual – ou, pode-se dizer, o manipula em sentido para lá de positivo – de modo semelhante ao que fizera décadas atrás em ET, Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Os Caçadores da Arca Perdida e Jurassic Park. É um cinema familiar. Há déjà-vu, boas carícias naqueles pensamentos nostálgicos. Por outro lado, a inventividade e a capacidade de surpreender estão presentes nesta “distopia alegre”.

Se os iniciais acordes e alguns minutos de Jump, um dos maiores sucessos da banda Van Hallen, conferem tom descontraído nos primeiros momentos, a realidade não é colorida no ano de 2044. O caos urbano é reinante e o déficit habitacional (conhecemos muito bem o problema em 2018, aqui mesmo em nossas terras) faz com que muitas pessoas morem em favelas sem a mínima infraestrutura. O jogo de realidade virtual OASIS é a alternativa de fuga perfeita para todos que buscam se transportar para um mundo melhor. Orfão de pai e mãe, o jovem Wade Watts (o ator Tye Sheridan) é um viciado na brincadeira, que insere os participantes em uma espécie de “céu pré-morte” onde tudo é possível.

Quando o criador do jogo James Halliday (o ator Rylance) morre, um desafio com uma premiação generosa é lançado: o jogador que primeiro passar por labirintos intrincados e solucionar diferentes enigmas, irá conquistar a sua fortuna e se tornar o ‘dono’ do brinquedo. O maior adversário de Wade na empreitada é o ambicioso Nolan Sorrento, vivido pelo ator Bem Mendelsohn, que esteve soberbo na pouco vista série Bloodline e nesta obra representa um vilão-arquétipo em perfeita sintonia com o tom proposto.

Spielberg é um manipular do bem – afinal bons sentimentos, companheirismo e empatia são alguns dos principais alicerces morais dos personagens de basicamente todas as suas obras, e aqui não é diferente – e dos bons, pois utiliza seus artifícios com impecável requinte. Mesmo sendo estes tão reconhecidos, são há décadas celebrados, com justiça.

Jogador Nº 1 é eficiente enquanto drama e mesmo que timidamente e sem pretensões, faz pontuações críticas à negligência do estado com as condições sociais da população de núcleos urbanos. Em contrapartida, quando os bons humanos colocam os óculos especiais e entram no OASIS, observamos um universo de detalhes gráficos e requinte técnico pouco visto na história do cinema. Sequências de ação e embates físicos de tirar o fogo, humor, romance. Esse é o Spielberg da aventura juvenil!

Sim, a bondade, a força e a coragem do protagonista, dos fiéis escudeiros e da sua “crush” são, digamos, lineares, quase rasas. Sim, os antagonistas são mais bobos que irritadiços, mas a inserção destas figuras naquela tour quase onírica é executada com primor, e a dinâmica dos personagens em ambos os mundos convence. Suspensão da descrença no melhor modus operandi possível.

Dá para imaginar que em meio à difícil tarefa de coordenar equipes (e egos), ajustar cenários e gritar ação, o sujeito que fez uma criatura de outro planeta e um grupo de jovens levantar voo em bicicletas ao som da trilha imortal de John Willians, se divertiu como moleque.

Com o perdão do lugar comum, se naquele mundo ‘o limite é o impossível’, por qual razão os partícipes não poderiam participar de uma corrida – meio Speed Racer, meio Road Rash – e cruzar com famosos (e raivosos) monstros da cinematografia entre um arranha céu e outro e pontes desabando? Por que não adentrar uma famosa cena de terror em corredor de hotel do clássico dirigido por Stanley Kubrick? Essa pista ficou fácil, mas você ainda irá se surpreender.

Steve Spielberg traz boa história, adaptada do livro de Ernest Cline, e é agraciado com as múltiplas possibilidades de produção, nesta era cujos efeitos especiais encantam, enchem os olhos, mas não são mais ‘a grande novidade’. O filme retrata o futuro, mas acima de todas as questões é um delicioso passeio ao passado e suas inesgotáveis referências. Do já citado som do Van Hallen, ao pop Bee Gees e ao cabelo no estilo Duran Duran a tantas outras representações artísticas.

Aposto que Kubrick daria um sorriso. Filmaço!

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