Um divertido cardápio de casuais situações

Por Fabricio Duque


Talvez um dos segredos do sucesso seja mesmo a despretensão. Quando se espera o pouco, então a liberdade “céu é o limite” é conduzida sem amarras. É o que acontece em “Madame”, uma comédia de erros, de situações do acaso, em que uma ação do personagem é a única responsável pela conseqüência dos acontecimentos no futuro. É a teoria do Caos e seu bater de asas de uma borboleta.

“Madame” é também um filme de transformação comportamental. De um robótico indivíduo de riqueza aristocrática (padronizado, sistemático, limitado e atrasado às mudanças da sociedade, que vive muito mais preocupado com a opinião e fofoca do outro que com a própria existência) em um ser mais humanizado, mais flexível e tolerante com as idiossincrasias alheias e com as próprias fragilidades e hipocrisias.

O roteiro faz que nós espectadores pululemos inferências e “viajemos” a outros filmes e outras histórias. Quando a empregada “ganha” um “passe status” de “gente”, nossas mentes são transportadas ao clássico “Cinderela”, e quando o jantar acontece, a “O Discreto Charme da Burguesia”, de Luis Buñuel, e a “O Jantar”, de Ettore Scola.

E quando a narrativa desenvolve o humor, somos convidados a lembrar ambiências das obras dos diretores Woody Allen (pelo inocente sarcasmo quase acriançado) e de Pedro Almodóvar (pela orgânica estrutura da desconfortável vida como ela é – e também por ter no elenco a atriz ícone de seus filmes, Rossy de Palma, que é “uma versão da adolescência” da própria diretora).

“Madame”, dirigido pela francesa Amanda Sthers (de “Je vais te manquer”), em seu segundo filme, conduz sua narrativa por um perspicaz e espirituoso ritmo cadenciado, que se mescla com a equilibrada e palatável edição da estrutura mais americana (uma das tendências objetivadas do novo cinema francês – que busca suavizar com características do gênero novela) , que foca na simplicidade para descomplicar o próprio conceito metafórico.

Recém-chegados em Paris, os americanos Anne (a atriz Toni Collette) e Bob (o ator Harvey Keitel) organizam um luxuoso jantar para 12 pessoas. Quando uma presença inesperada faz o número virar 13, a supersticiosa anfitriã se recusa a dar chance ao azar e transforma a empregada Maria (a atriz Rossy de Palma) em convidada especial espanhola. Inicialmente receosa, ela acaba conquistando um comerciante de arte britânico com seu jeito único e o relacionamento se aprofunda para além da noite de festa, para desespero dos controladores patrões de Maria.

“Madame”, com distribuição da Califórnia Filmes, é um filme de instantes, de teatralizado e coloquiais momentos quase monólogos a fim de que seus atores brilhem seus talentos e primazias, tudo dentro de um limite temporal e interpretativo, indo até onde podem e até onde se esperam deles. E também uma troca, um compartilhamento de emocionais personalidades que precisam lidar com medos, submissões, arrogâncias estimuladas (e esperadas da alta nata) e esconder as vulnerabilidades, estas que desestruturam a ordem sistemática da “máquina robótica” de cada um.

Aqui, seus alívios cômicos são integrados e co-dependentes, e não um gatilho comum que manipula a jornada do espectador, desencadeando assim uma experiência do genuíno e solto riso, que diverte pela inusitada, surreal, incômoda e desajeitada tradução no mergulho mais inconsciente da vida privada, que se dispa de máscaras e plásticas, como um passeio aos sentimentos mais primitivos e ainda não corrompidos pelas influências mundanas e externas.

“Madame” é uma chance, uma terapia de choque, de doses cavalares, à transmutação humanista. É uma possibilidade de libertar padrões, de confrontar a inveja, de enxergar preconceitos contra classes sociais menos favorecidas, de perpetuar o vazio e o superficial. É aceitar que há outras formas de se relacionar e permitir que uma governanta pudesse vivenciar, ainda que por um curto período de tempo (tudo por causa do medo da perda de uma profissional cuidadosa e imprescindível) estar na companhia de excêntricos “intelectualizados”, e até mesmo ser cortejada amorosamente por um deles.

É sobre a tomada de consciência desta governanta, que “acorda”, como a personagem de Regina Casé em “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, e se incomoda com o tratamento que recebe, e insatisfeita, dá asas a sua motivação de recomeçar, de finalmente partir à aventura de sua própria vida. É a personificação da máxima “há males que vêm para o bem” e para a simbólica visão de discreta, de protesto silencioso e resiliente revolta com a situação atual em que se encontra, e que, durante muito tempo, se acomodou, em um confortável, aceito e alienante “coma” e definido como modelo de felicidade.

“Minha vida inteira foi dedicada à leitura, mirando em melhorar quem eu era e me tornar mais inteligente. E, de repente, me vi em um mundo fútil, dominado por dinheiro. Durante jantares, me sentia como a empregada. Então é possível que a personagem de Maria, interpretada por Rossy de Palma, é uma versão da minha adolescência!”, finaliza a diretora Amanda Sthers.

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