A serpente que entra

Por Fabricio Duque


Os diretores estreantes Pedro Jezler e Fábio Furtado buscaram inspiração na mitologia grega para construir o conceito narrativo do documentário “Górgona”, criando o paralelo de lá das criaturas mulheres, monstros poderosos que tinham na cabeça, no lugar de cabelos, serpentes com as personagens daqui, interpretes da adaptação do “melodrama grotesco” “As Três Velhas”, a obra teatral escrita pelo diretor chileno Alejandro Jodorowsky (de “A Montanha Sagrada”, “A Dança da Realidade”, “Poesia Sem Fim”), “influenciado por Glauber Rocha”.

“Górgona” é sobre o poder do teatro, sobre a paixão devastadora por esta arte que faz um ser poder vivenciar outros, e acima de tudo, é mais sobre o processo e as dificuldades de se montar um espetáculo que sua apresentação propriamente dita. O documentário foca no universo do teatro e seus bastidores, ensaios, aniversários, limites da construção, dívidas resultantes da desta produção (que levou quatro anos para ser encenada), espaços, maquiagens, entregas, catarses, esperas e na atriz Maria Alice Vergueiro, também diretora da peça, que desgostosa de fazer novelas, investiu setenta e cinco mil reais do próprio bolso e se “endividou”.

É um filme homenagem (de contemplar a retratação de instantes estendidos) a esta septuagenária atriz do grupo Pândega, portadora do mal de Parkinson (sentindo todo o corpo “tremer” antes de entrar em cena e que cessa “quando chega a sua casa” – “a serpente que entra”), que vive rodeada pela aclamação da crítica e de público, mas que ao mesmo tempo sente a indiferença da indústria “entretenimento”, enquanto tenta encarar o grotesco da morte oscilando entre o horror e o risível.

A câmera traduz apenas flores: elogios e cumprimentos. E na maioria das vezes, comporta-se na mão, próxima, porém tímida e submissa, quase intrusa pelas esquecidas frestas das portas, como um escondido voyeur, preocupado em captar a essência mais íntima de seu observado. Esta sensação nos faz inferir a “Iran”, de Walter Carvalho. Aceitando os limites de sua fotografia: granulada por estar majoritariamente no escuro (e na contramão da luz), em sombras que insinuam movimentos.

“Górgona” é um filme que acontece na edição, que fascina por naturalizar a vida como ele é. “Shakespeare não falou que é melhor um mau epitáfio do que a gozação dessa gente (os artistas, nós do teatro) em vida?, conversam, com fascínio, verdade, respeito e vulgaridade, e contam histórias que “desmistificam tudo” e que precisam “ficar no subconsciente do público”. É também um documentário que quebra a magia (“que vai toda embora”), que “assalta” a fantasia com a realidade burocrática, nua e crua, do aspecto financeiro e sobre seus salários e do conflito da procuração legal para “não ficar vulnerável”. É o outro lado do teatro, que clama por um “pouco de privacidade” para cortar a uma imagética luz focal na personagem. É a força do teatro pelas lentes do cinema.

O filme é altamente metafórico. As personagens com maquiagem fantasmagórica representam esses atores fantasmas, que querem trabalhar e expor suas ideias e são impedidos pela política das indústrias do entretenimento. Na trama, são três mulheres velhas (duas interpretadas por atores), que simbolizam as três mitológicas “górgona”. A peça conta conta a história fabulesca de duas marquesas decadentes e octogenárias. Melissa e Graça vivem em uma mansão em ruínas e são vigiadas pela centenária criada Garga. Parecem ser salvas do desgosto ao receberem um convite para se tornarem garotas-propaganda. Elas ainda são cercadas por uma figura dúbia e misteriosa. “O tempo passou. Trouxe a velhice e a ruína”, diz-se.

Górgona tinha o poder de transformar todos que olhassem para ela em pedra. É exatamente assim no teatro. Quando o ator está entregue (sempre na personagem), então consegue paralisar o público a consumir “o alimento” fornecido em palavras, engrenagens, ações e reações. “Uma realidade fantástica como “Cem anos de solidão” (de Gabriel Garcia Marquez)”, diz-se.

Todos os integrantes da equipe da peça buscam o timing perfeito, a perfeição do “Cisne Negro”, de Darren Aronofsky. E ainda que o retorno seja pouco no teatro (e a mágoa-amargura com Zé Celso – e o não-pudor em exibir uma garrafa de cachaça 51 – e o não patrocínio da Petrobrás, do Bradesco – “quase uma censura” por terem solicitado a eles “mudar o texto”), muito diferente da televisão (de “onde vem o dinheiro”, ainda que faça dos atores estarem “aquém de seus talentos”). “Quando começa (a peça) não pode mais parar. Teatro é foda!”, diz-se entre “rugas que apareceram de uma hora para outra”, “A balada da dependência sexual”, de Kurt Weeill & Bertold Brecht. É um “puta percurso”.

“Já com a ideia de fazer um documentário, nossa abordagem foi a da longa convivência, praticamente em todas as apresentações da peça. Como Fábio faz parte da companhia, depois de um certo tempo, a presença da câmera foi se tornando cada vez mais natural. Depois das filmagens, revíamos o material bruto e assim fomos entendendo como e o que registrar”, afirma o diretor Pedro.

“Percebemos que não nos interessava olhar para material de arquivo ou tentar abranger uma vida inteira no tempo de um filme. Era aquele momento da vida da Maria, com as tantas camadas que trazia, que decidimos retratar”, completa o diretor Fábio.

“Fizemos a opção de só filmar os atores dentro do teatro, assumindo a perspectiva de quem faz parte desse mundo. São artistas do palco, e queríamos preservar esse contexto. Por isso não há cenas do ponto de vista da plateia, na casa da atriz e nem externas. Se aparece algum trecho da peça, é sempre mostrado a partir das coxias”, conta Pedro.

“Como o cotidiano dos bastidores é feito de coisas que se repetem a cada apresentação, pudemos filmar os mesmos gestos ao longo dos anos e fomos desenvolvendo um interesse pela passagem do tempo. Todo esse material foi depurado no processo de montagem do filme, que também foi muito longo, durou quase dois anos”, revela.

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